domingo, janeiro 15, 2017

INVISÍVEIS POR LORENA MOURA


INVISÍVEIS



        O sol já estava desaparecendo e eu estava de partida da cidade. Como sempre, por volta desse horário havia um ir e vir constante de pessoas na rodoviária e alguns invisíveis da sociedade sentados nos bancos, com olhares apáticos. 
          Eu fora mais cedo para acompanhar a roda de capoeira que iria se apresentar ali. Aos poucos iam chegando os capoeiristas com seus instrumentos...durante o aquecimento eles tocavam e entoavam canções sobre a resistência e a luta do negro. Era uma cena, por si só, muito bonita de se ver. De repente, ao observar um pouco mais atentamente, notei que os senhores que moravam ali, ao escutarem o som dos tambores e do berimbau entraram em um outro estado. Uns batucavam com os dedos nas próprias pernas, outros sorriam remexendo seus corpos e alguns até se levantaram e discretamente dançaram...
             Entre tantos, uma mulher em especial me chamou a atenção. Ela tinha o corpo franzino, os cabelos estavam sem pentear, vestia um vestido surrado e tragava um cigarro. A cada tragada que dava ao cigarro, ela fechava seus olhos e absorvia um pouco da música. 
                 Era perceptível, para quem quisesse ver, que a música estava entrando no corpo dela em doses graduais. Até que ela transcendeu. Ela deixou a música brincar com seu corpo e, entre os batuques, ora o corpo dela se expandia para trás, ora se curvava em direção ao seu ventre e ela foi dando ritmo a esse movimento. Ela rodopiava entre os transeuntes, fazia movimentos com seus braço...sua dança era uma mistura de balé e luta, de docilidade e força.
                    Ela fechava seus olhos e parecia que apenas o corpo dela estava ali, eu poderia ter visto a alma dela se elevar se isso fosse possível de ver, mas eu apenas pude sentir. E por fim ela retirou o lenço roxo que estava em seu cabelo e começou a fazer movimentos suaves no ar. Ela encontrara seu par e eles estavam dançando lindamente. Quando a música parou, eu ainda fiquei olhando pra ela por um tempo de tão admirada que eu estava e ela me notou, enquanto retornava em direção ao seu banco, mas eu não fiz questão de desviar meu olhar e sorri em agradecimento por aquele espetáculo de apresentação, ela sorriu de volta e piscou o olho para mim.
                  Seguimos nossas vidas e fui transformada. E me lembrei de Nietzsche dizendo: "Aqueles que foram vistos dançando foram julgados por aqueles que não podiam escutar a música."


*Lorena Moura.
- Estudante de psicologia da Universidade Federal Fluminense - UFF em Campos dos Goytacazes-RJ.

Um comentário:

Tiago Alves disse...

Muito bacana! Obrigado por partilhar conosco essa fantástica experiência!