
Organização: Grêmio Literário Internacional Poesiarte (GLIP)
Entrevistador e Tradutor: Anthony Rasib, Secretário Executivo do GLIP
Convidada: Mimoza Zymeri
País de Origem: Kosovo (Residente na Alemanha)
Perfil: Escritora, Poetisa, Economista e Enfermeira
É com imensa honra que o Grêmio Literário Internacional Poesiarte (GLIP) recebe hoje Mimoza Zymeri, uma das vozes mais sensíveis da literatura contemporânea kosovar no exterior. Nascida em Ferizaj, Kosovo, e atualmente radicada na Alemanha, Mimoza é autora de obras marcantes como a coletânea de poesias A Força da Gentileza e o livro de prosa Ame a Si Mesmo. Em uma conversa afetiva e reflexiva, exploramos a infância, as primeiras memórias com a palavra escrita, as raízes de sua terra natal e como a sensibilidade cultivada na juventude se transforma em poesia para o mundo.
1. Anthony Rasib: Dizem que a infância é o solo onde nascem os nossos maiores talentos. Ao relembrar seus primeiros anos no Kosovo, em que momento ou situação você percebeu que a poesia e a literatura seriam a sua forma de traduzir o mundo e dar voz aos seus sentimentos mais profundos?
Mimoza Zymeri: Olhando para a minha infância, a memória mais remota que me habita é aos seis anos, quando aprendi a ler. Durante o dia, eu sempre tinha um livro nas mãos em vez de brinquedos, motivada pelo desejo de ler exatamente como um adulto. Sem notar, eu já tecia uma relação singular com o universo das palavras. Naquela idade, eu não sabia qual lugar a poesia e a literatura eventualmente teriam na minha vida. Mas eu sentia que, através das palavras, podia descobrir novos mundos, me compreender mais profundamente e expressar coisas que às vezes eram difíceis de dizer de qualquer outra forma. Um ano mais tarde, aos sete, subi ao palco pela primeira vez para declamar. No Kosovo, ao final de cada ano letivo, era organizado um evento onde toda a escola se reunia com os familiares. Para mim, aquele momento foi muito mais do que uma recitação. Foi a primeira vez que senti que algo vindo do meu mundo interior podia viajar através da minha voz e tocar o coração de outras pessoas. Hoje, quando penso naquela garotinha, parece que a poesia e a literatura me encontraram antes mesmo que eu saísse à procura delas. Talvez alguns dos dons que carregamos dentro de nós não sejam coisas que escolhemos conscientemente; eles se revelam naturalmente e nos convidam a segui-los. Para mim, a poesia e a literatura se tornaram exatamente isso: uma forma de entender o mundo, de me ouvir mais profundamente e de dar voz a sentimentos que muitas vezes não podem ser expressos por palavras comuns. E acredito que aquela garotinha de seis anos, com um livro nas mãos, já estava me mostrando uma parte do meu caminho.
2.Anthony Rasib: Muitas vezes a poesia nasce da capacidade de enxergar o extraordinário nas coisas simples da vida. Como a sua infância em Ferizaj e seus anos de formação em Prishtina moldaram esse seu jeito especial de observar o mundo, e como essa essência dos seus primeiros anos permanece presente no seu processo criativo?
Mimoza Zymeri: Acho que a minha infância em Ferizaj me ensinou a contemplar a vida através do sentir. Eu era naturalmente atraída pelas coisas pequeninas e aparentemente comuns ao meu redor — as pessoas, suas expressões, suas histórias, a atmosfera da vida cotidiana. Mesmo quando criança, eu era sensível ao que acontecia abaixo da superfície, embora ainda não tivesse palavras para explicar. Ao trilhar meus anos de formação em Prishtina, essa sensibilidade gradualmente se tornou uma consciência mais profunda. Fiquei mais consciente de mim mesma, das minhas emoções, das pessoas ao meu redor e do mundo que eu estava descobrindo. Prishtina abriu um espaço mais amplo para eu pensar, questionar, observar e, talvez o mais importante, decifrar o que se passava no meu íntimo. Acredito que isso ainda está presente no meu processo criativo hoje. Muitas vezes encontro inspiração não em eventos extraordinários, mas nos detalhes silenciosos da vida — um olhar, um silêncio, uma memória, um momento simples que carrega uma emoção mais profunda. Talvez tenha sido isso que meus primeiros anos me ensinaram: que sempre há algo mais por trás do que vemos. Quando ficamos calmos o suficiente para ouvir, até os momentos mais simples podem revelar algo significativo. E acho que é aí que minha escrita começa. Observo o mundo, mas, ao mesmo tempo, escuto o que ele desperta dentro de mim. O que antes eu vivenciava intuitivamente quando criança tornou-se, com o tempo, uma parte da linguagem consciente do meu criar.
3.Anthony Rasib: Seu poema premiado traz no título uma linda metáfora: "Kosovo, Filha das Tempestades e do Brilho do Sol". Como essa dualidade entre momentos difíceis e de luz moldou a sua sensibilidade artística, e como é expressar o amor pelas suas raízes vivendo hoje no contexto cultural da Alemanha?
Mimoza Zymeri: Para mim, Kosovo, Daughter of Storms and Sunshine (Kosovo, Filha das Tempestades e do Brilho do Sol) é mais do que um título. Carrega uma parte da minha história pessoal, mas também algo mais profundo sobre o espírito do lugar de onde venho. Eu era muito jovem quando vivenciei parte da destruição causada pela guerra no Kosovo. Aquelas memórias se tornaram parte da minha paisagem interior, mas nunca quis que elas definissem toda a minha história. Ao lado da dor, também me lembro da força das pessoas, da sua coragem, do seu amor e da sua capacidade de continuar acreditando na vida. Talvez seja daí que vem o significado das tempestades e do brilho do sol para mim. A vida pode conter ambos ao mesmo tempo. Podemos carregar memórias difíceis dentro de nós e, ainda assim, escolher a esperança. Podemos reconhecer o que nos feriu sem permitir que isso tire nossa capacidade de amar, de criar e de seguir em frente. Acredito que algumas das formas mais profundas de criatividade nascem quando transformamos o que vivemos em algo que possa trazer significado, conexão ou luz para os outros. Para mim, a escrita se tornou uma dessas formas. Não escrevo para permanecer na dor do passado, mas para dar-lhe voz, para compreendê-la e, às vezes, para transformá-la em algo curativo. Meu amor pelo Kosovo está profundamente conectado às minhas raízes — à minha língua, à minha infância, às minhas memórias, ao meu povo e a tudo o que moldou a pessoa que me tornei. Viver na Alemanha não me fez sentir mais distante dessas raízes. Em muitos aspectos, a distância me permitiu enxergá-las com mais clareza e apreciá-las mais profundamente. Também aprendi que abraçar outra cultura não significa deixar a sua para trás. Podemos abrir nossos corações para um novo mundo enquanto permanecemos conectados de onde começamos. Nossas raízes podem viajar conosco. E talvez seja isso que Daughter of Storms and Sunshine em última análise significa para mim: venho de um lugar que conheceu tempestades, mas também uma luz extraordinária. E carrego ambos dentro de mim — não como opostos, mas como duas partes da mesma história. Hoje, quando crio, escolho dar mais espaço à luz. Não porque esqueci as tempestades, mas porque sei que a luz se torna ainda mais preciosa quando conhecemos a escuridão.
4.Anthony Rasib: Ao longo de sua jornada como escritora, você construiu um acervo literário marcante. Quantos livros você já publicou até hoje e em quais idiomas suas obras e poesias já estão disponíveis para os leitores ao redor do mundo?
Mimoza Zymeri: Até agora, publiquei dois livros, ambos em albanês. Para mim, cada um deles representa uma parte da minha jornada interior e uma forma de compartilhar com os outros o que vivenciei e senti. Também tenho poesias publicadas em inglês, enquanto o meu terceiro livro será publicado em breve. Já comecei a trabalhar nas traduções e, em breve, meus livros também estarão disponíveis em inglês. Estou trabalhando com grande dedicação para permitir que minhas palavras viagem além das fronteiras e alcancem leitores em diferentes partes do mundo. Acredito que quando uma palavra nasce do coração, ela sempre encontra um caminho para alcançar outro coração.
5.Anthony Rasib: Na infância, as histórias e a literatura muitas vezes nos ensinam a cultivar a paz e a gentileza. Como o seu livro A Força da Gentileza (The Power of Gentleness) resgata esse sentimento lúdico e delicado em um mundo que frequentemente nos cobra dureza e pressa?
Mimoza Zymeri: Acredito que The Power of Gentleness (A Força da Gentileza) é um convite para retornar a essa parte pura e sensível de nós mesmos que frequentemente perdemos à medida que envelhecemos. Em um mundo que constantemente nos exige ser fortes, velozes e prontos para lidar com tudo, meu livro lembra às mulheres, em particular, que elas não precisam renunciar à sua gentileza para serem fortes. No poema, eu falo sobre os desafios que as mulheres enfrentam, as expectativas da sociedade, os sacrifícios que fazem, mas também sobre a força que descobrem dentro de si mesmas. Para mim, a gentileza é a luz que nos permite continuar amando, esperando e acreditando, mesmo quando a vida se torna difícil. Talvez seja essa a conexão com a infância: não perder a nossa capacidade de ver a vida com o coração, de acreditar na bondade e de preservar dentro de nós essa luz simples que não pede nada, exceto permanecer verdadeira. Porque, como eu acredito, a gentileza não nos torna mais fracos; ela nos lembra de quem realmente somos.
6.Anthony Rasib: A busca espiritual em Ame a Si Mesmo (Love Yourself) sugere que olhar para dentro é o primeiro passo para a transformação do ser. Como a sua própria busca por autoconhecimento expande a sua compreensão da mente humana e nutre a dimensão terapêutica dos seus versos?
Mimoza Zymeri: Para mim, amar a si mesmo é uma das forças mais poderosas que carregamos dentro de nós. É uma jornada em direção ao conhecimento e à aceitação de quem somos, e acredito que toda transformação real começa aí — quando fazemos uma pausa e começamos a nos ouvir mais de perto. Minha própria busca por autoconhecimento também me ajudou a compreender a mente humana em um nível mais profundo. Passei a entender como nossas experiências, feridas, medos e emoções influenciam a maneira como vemos a nós mesmos e a nossa vida. Mas também aprendi que o nosso passado não precisa determinar o nosso futuro. Mesmo através da dor, podemos aprender, crescer e descobrir uma nova força dentro de nós. Love Yourself (Ame a Si Mesmo) é uma obra em prosa na qual eu quis compartilhar precisamente essa mensagem: voltar-se para dentro, escutar a si mesmo com maior amor e compreender que o amor-próprio é a base de todo relacionamento saudável. Essa forma de ver a vida também influencia a minha escrita. Acredito que as palavras podem nos ajudar a entender melhor o que sentimos, a aceitar o que vivemos e a nos reconectar com a força que existe em nosso interior. Se um poema ou uma página que escrevo trouxer a alguém um pouco de luz, esperança ou coragem para continuar, então sinto que minha escrita encontrou o seu propósito. Em última análise, para mim, amar a si mesmo significa aceitar quem você é, ouvir sua voz interior e confiar que você pode começar de novo sempre que a vida lhe pedir.
7. Anthony Rasib: Em muitas tradições do yoga, o silêncio e a imobilidade do corpo são o espaço onde a verdadeira consciência desperta. Como a quietude alcançada no yoga te ajuda a ouvir a intuição e encontrar as palavras exatas para as suas poesias?
Mimoza Zymeri: Para mim, a quietude que vivencio através do yoga e da meditação cria o espaço onde posso ouvir minha intuição com mais clareza. Quando o corpo se acalma e a mente se afasta, mesmo que por um momento, do ruído da vida cotidiana, me torno mais presente para o que está acontecendo dentro de mim. Nesses momentos, não tento forçar as palavras de um poema. Em vez disso, permito que elas surjam naturalmente. Às vezes é um sentimento, uma memória, uma imagem ou até mesmo um pequeno pensamento que me traz a primeira palavra, e então os versos começam a ganhar forma. Acho que o yoga me ensinou a confiar nesse silêncio e na voz interior que habita em mim. Quando não forço a criatividade, mas me dou tempo e espaço para simplesmente ser, as palavras que vêm são mais honestas e mais precisas. Para mim, essa é a conexão mais bonita entre o yoga e a poesia: a quietude me ajuda a escutar o que minha intuição já sabe, e a poesia me dá as palavras para expressar.
8. Anthony Rasib: Unir áreas aparentemente tão distintas quanto a ciência econômica, a saúde e a literatura revela uma mente multifacetada. De que forma essa síntese entre o método, a compaixão e a intuição poética se reflete na estrutura e na mensagem dos seus livros?
Mimoza Zymeri: Ao meu ver, esses campos nunca estiveram realmente separados. A economia me ensinou a ver a estrutura e as relações entre as coisas, a saúde me ensinou a ver o ser humano com compaixão, enquanto a literatura e a poesia me ensinaram a escutar o que nem sempre pode ser expresso em palavras. Acredito que, quando reunimos método, compaixão e intuição, criamos uma maneira mais completa de compreender a vida. O método nos dá clareza e direção, a compaixão nos lembra de não perder de vista o ser humano, e a intuição nos guia em direção ao que é verdadeiro para nós. Essa síntese naturalmente se tornou parte dos meus livros também. Em sua estrutura, procuro trazer clareza, enquanto em sua mensagem quero criar espaço para reflexão, sensibilidade e mudança interior. Acredito que as palavras têm o poder de nos ajudar a nos ver com mais amor. No fim das contas, estejamos falando de economia, saúde ou poesia, eu sempre retorno ao mesmo princípio: todos nós precisamos ser compreendidos, ouvidos e, acima de tudo, aprender como nos aceitar e nos amar. Quando a forma como nos vemos começa a mudar, a forma como vivenciamos a vida começa a mudar também.
9. Anthony Rasib: A enfermagem coloca o profissional diante da fragilidade, da dor e da superação humana todos os dias. Como enfermeira, você já viveu alguma situação no cuidado com um paciente que te tocou de forma tão profunda a ponto de se transformar diretamente em inspiração para um poema?
Mimoza Zymeri: Sim, já vivenciei situações assim. Ao longo do meu trabalho como enfermeira, passei por momentos com pacientes que me tocaram profundamente, especialmente ao testemunhar de perto o medo, a dor e a incerteza deles, mas também a sua incrível força para continuar. Uma dessas experiências permaneceu particularmente guardada no meu coração. Foi um momento em que percebi que, além dos cuidados médicos, um paciente também precisa de uma palavra de esperança, de alguém que o escute e de alguém que o lembre de que, mesmo nos dias mais difíceis, ainda existe luz. Deste sentimento nasceu o poema Light After Pain (Luz Após a Dor). Eu o escrevi como uma mensagem para pacientes que estão enfrentando a dor, o medo e noites longas, para lembrá-los de que eles não são definidos pela enfermidade que estão vivenciando. Eles são força, são esperança e, mesmo quando parece não restar mais nenhuma luz, ainda pode haver dentro deles um motivo para acreditar. O poema se tornou a minha forma de expressar algo que às vezes não conseguimos colocar em palavras apenas através dos cuidados de enfermagem: que após a dor, a esperança pode emergir, e que cada novo dia é mais uma oportunidade para seguir em frente.
10. Anthony Rasib: A literatura nos permite cruzar oceanos e conectar almas. O que mais te fascina ou chama a atenção na cultura e no povo brasileiro? E o que você gostaria que os leitores do Brasil descobrissem sobre a verdadeira essência, a alma e a poesia do Kosovo — essa riqueza humana e espiritual que raramente é mostrada pela grande mídia?
Mimoza Zymeri: O que mais me atrai na cultura brasileira e em seu povo é o seu calor humano e a forma única como abraçam a vida. Aqui na Alemanha, tenho amigos do Brasil e tive a oportunidade de conhecer pessoas incrivelmente gentis, abertas, alegres e cheias de energia positiva. Eu também amo muito a língua portuguesa. Para mim, soa incrivelmente bela e acolhedora. Talvez seja por isso que me sinto ainda mais conectada à ideia de que a literatura pode criar pontes entre as pessoas, mesmo quando vivem em países diferentes e falam idiomas diferentes. Eu adoraria que os leitores no Brasil descobrissem um lado diferente do Kosovo, além do que costumamos ver na mídia. Gostaria que descobrissem o Kosovo através de seu povo, através de seu coração e sua alma, de suas famílias, do amor, da hospitalidade e da força. O Kosovo vivenciou muita dor, mas essa não é a única história que ele tem a contar. Há também tanta luz, amor e esperança. Acredito que minha poesia também vem desse lado do Kosovo — das experiências humanas, das feridas, mas também do desejo de curar, de amar e de recomeçar. Me deixaria muito feliz se, um dia, meus livros também fossem traduzidos para o português. Seria uma forma linda de fazer minhas palavras chegarem aos leitores brasileiros e de criar uma ponte entre o Kosovo e o Brasil. E claro, eu adoraria visitar o Brasil um dia. Até agora, conheci um pouco através dos meus amigos brasileiros aqui na Alemanha, mas espero que um dia eu possa vivenciar isso por mim mesma — ver, ouvir sua língua bonita e sentir essa energia de perto, essa energia sobre a qual ouvi falar tanto e que já pude vivenciar através do seu povo.
11.Anthony Rasib: Toda região impõe seus próprios desafios para a criação e circulação da arte. Olhando para a sua vivência entre a Europa Ocidental e os Bálcãs, quais são os maiores obstáculos que uma autora enfrenta na Alemanha e no Kosovo para ter sua voz ouvida e respeitada no mercado literário atual?
Mimoza Zymeri: Acredito que um dos maiores desafios para uma autora hoje é encontrar o espaço onde sua voz possa ser ouvida no meio de tantas outras vozes. Isso é verdade tanto no Kosovo quanto na Alemanha, embora os desafios sejam diferentes. No Kosovo, o mercado literário é menor, e as oportunidades de promoção, distribuição e alcance de um público mais amplo são mais limitadas. Na Alemanha, por outro lado, o mercado é muito maior e a competição é extremamente forte. Para uma autora vinda dos Bálcãs, há também o desafio do idioma, da cultura e de encontrar seu lugar dentro de um novo ambiente literário. Mas acredito que as dificuldades nunca devem ser o que nos define. Para mim, o mais importante é não perder a fé na sua própria voz e no que você tem a dizer. Uma autora deve escrever sobre o que sente, o que vivencia e o que acredita que possa tocar outras pessoas também. Acredito fortemente no poder das palavras. Um livro pode viajar para lugares onde a autora ainda não pôde ir. Ele pode atravessar idiomas, fronteiras e culturas, e tocar o coração de alguém que você talvez nunca tenha conhecido. É por isso que, em vez de ver as dificuldades como muros, procuro vê-las como pontes que ainda precisam ser construídas. Quero que minha voz seja ouvida não porque busco atenção, mas porque tenho algo humano para entregar: esperança, amor, dor, cura e fé na vida. Acredito que quando você escreve com o coração e permanece fiel a si mesma, sempre haverá alguém, em algum lugar, que encontrará uma parte de si em suas palavras. E talvez essa seja a forma mais bonita de conquistar o respeito na literatura — não tentando ser a voz mais alta, mas sendo uma voz honesta.
12. Anthony Rasib: Espaços de entrevista como este promovidos pelo GLIP aproximam o público da essência humana por trás dos livros. Para você, qual é a relevância de uma instituição literária brasileira promover esse tipo de acolhimento e destaque para autores internacionais?
Mimoza Zymeri: Acredito que um espaço como o criado pelo GLIP tem um valor extraordinário porque nos permite ver não apenas o livro, mas também a pessoa por trás dele. Cada autor carrega uma história, emoções, experiências e um pedaço de sua alma, e quando recebe a oportunidade de compartilhar tudo isso com o público, cria-se uma conexão muito mais profunda. Para mim, o fato de uma instituição literária brasileira abrir suas portas para autores internacionais é um gesto lindo de respeito e humanidade. A literatura não conhece fronteiras, e as pessoas não precisam falar o mesmo idioma para serem tocadas pela mesma emoção. É por isso que gostaria de agradecer sinceramente ao GLIP por criar este espaço e por me dar a oportunidade de compartilhar minha voz, minha história e um pedaço da minha alma com os leitores brasileiros. Para mim, isto é mais do que uma entrevista; é uma ponte conectando o Kosovo e o Brasil através das palavras e das emoções. Acredito que o mundo precisa de mais espaços como este — espaços onde as pessoas não são julgadas de onde vêm, mas são escutadas pelo que carregam em seus corações. Porque um livro pode começar em um canto do mundo, mas quando é escrito com amor, ele não pertence mais apenas ao seu autor. Ele se torna uma luz que pode alcançar qualquer coração, em qualquer lugar do mundo. E por esta oportunidade, sou profundamente grata ao GLIP, e também a você, por abrir este belo espaço e permitir que eu faça parte dele.
13. Anthony Rasib: Para encerrar nossa conversa, que semente de inspiração você gostaria de plantar no caminho de uma jovem leitora brasileira ou kosovar que deseja contar suas histórias ao mundo e fazer da palavra o seu refúgio?
Mimoza Zymeri: Se eu pudesse plantar uma semente de inspiração ao longo da jornada de uma jovem leitora brasileira ou kosovar que deseja compartilhar suas histórias com o mundo, eu diria a ela primeiro: acredite na sua voz. Não pense que sua história precisa ser extraordinária para ter valor. Às vezes, são precisamente a nossa dor, os nossos sonhos, os nossos medos e os momentos mais simples da nossa vida que podem tocar outro coração de forma mais profunda. Se você deseja fazer da palavra escrita o seu santuário, entre nele sem medo. Escreva para se curar, para se compreender e para compartilhar com os outros o que aprendeu pelo caminho. Não permita que o medo do julgamento ou o pensamento de que "não sou boa o suficiente" silenciem a sua voz. E a cada jovem mulher, seja do Kosovo ou do Brasil, eu gostaria de plantar esta crença: suas palavras têm um lugar neste mundo. Talvez hoje você esteja escrevendo apenas para si mesma, mas amanhã suas palavras podem se tornar esperança, conforto ou luz para outra pessoa. Porque quando você escreve sua verdade com amor, suas palavras não permanecem apenas no papel. Elas viajam. Elas tocam pessoas que você talvez nunca conheça. E, às vezes, uma história escrita a partir do coração de uma jovem no Kosovo ou no Brasil pode lembrar a outra mulher, em algum lugar do mundo, que ela não está sozinha. Essa é a semente que eu gostaria de plantar: acredite em si mesma, não tenha medo de contar sua história e permita que suas palavras se tornem um santuário para você e uma luz para os outros.
Quem é Mimoza Zymeri
Mimoza Zymeri nasceu em 20 de setembro de 1986, em Ferizaj, Kosovo. Ela possui bacharelado em Economia e bacharelado em Enfermagem, ambos concluídos em Prishtina. Atualmente vive e trabalha na Alemanha, onde, ao lado de sua vida profissional, dá continuidade ao seu trabalho criativo e literário.
Desde cedo, Mimoza Zymeri viu-se atraída pelo universo da palavra escrita. A poesia e a prosa tornaram-se sua forma de expressar suas experiências, sensibilidade e observações sobre a vida, o espírito humano e a natureza.
Sua obra literária foi publicada em diversos jornais e revistas literárias, enquanto alguns de seus poemas também foram incluídos na antologia “Anembanë”.
Em 2024, seu poema “Kosovo, Filha das Tempestades e do Brilho do Sol” foi honrado com o Prêmio Jovens Talentos no Encontro de Poesia “Ymer Elshani”.
Uma parte importante do seu mundo criativo está conectada à meditação e à prática do yoga, as quais ela enxerga como caminhos para a paz interior, a autoconsciência e uma conexão mais profunda consigo mesma. Essas práticas são frequentemente refletidas em sua forma de perceber a vida e nos temas que explora através de sua escrita.
Em suas obras, ela explora temas como o amor, a paz interior, o amor-próprio e a beleza silenciosa da vida cotidiana. Para ela, a literatura é uma maneira de adentrar o mundo interior, compreender a si mesma mais profundamente e dar voz àquilo que muitas vezes permanece não dito.
Em 2025, publicou sua coletânea de poesias A Força da Gentileza, sendo Ame a Si Mesmo o seu segundo livro, escrito em prosa.




