sexta-feira, setembro 11, 2026

Entrevista exclusiva com a escritora Mimoza Zymeri de Kosovo por Anthony Rasib

 
ENTREVISTA EXCLUSIVA

Organização: Grêmio Literário Internacional Poesiarte (GLIP)


Entrevistador e Tradutor: Anthony Rasib, Secretário Executivo do GLIP


Convidada: Mimoza Zymeri

País de Origem: Kosovo (Residente na Alemanha)

Perfil: Escritora, Poetisa, Economista e Enfermeira


É com imensa honra que o Grêmio Literário Internacional Poesiarte (GLIP) recebe hoje Mimoza Zymeri, uma das vozes mais sensíveis da literatura contemporânea kosovar no exterior. Nascida em Ferizaj, Kosovo, e atualmente radicada na Alemanha, Mimoza é autora de obras marcantes como a coletânea de poesias A Força da Gentileza e o livro de prosa Ame a Si Mesmo. Em uma conversa afetiva e reflexiva, exploramos a infância, as primeiras memórias com a palavra escrita, as raízes de sua terra natal e como a sensibilidade cultivada na juventude se transforma em poesia para o mundo.


1. Anthony Rasib: Dizem que a infância é o solo onde nascem os nossos maiores talentos. Ao relembrar seus primeiros anos no Kosovo, em que momento ou situação você percebeu que a poesia e a literatura seriam a sua forma de traduzir o mundo e dar voz aos seus sentimentos mais profundos?


Mimoza Zymeri: Olhando para a minha infância, a memória mais remota que me habita é aos seis anos, quando aprendi a ler. Durante o dia, eu sempre tinha um livro nas mãos em vez de brinquedos, motivada pelo desejo de ler exatamente como um adulto. Sem notar, eu já tecia uma relação singular com o universo das palavras. Naquela idade, eu não sabia qual lugar a poesia e a literatura eventualmente teriam na minha vida. Mas eu sentia que, através das palavras, podia descobrir novos mundos, me compreender mais profundamente e expressar coisas que às vezes eram difíceis de dizer de qualquer outra forma. Um ano mais tarde, aos sete, subi ao palco pela primeira vez para declamar. No Kosovo, ao final de cada ano letivo, era organizado um evento onde toda a escola se reunia com os familiares. Para mim, aquele momento foi muito mais do que uma recitação. Foi a primeira vez que senti que algo vindo do meu mundo interior podia viajar através da minha voz e tocar o coração de outras pessoas. Hoje, quando penso naquela garotinha, parece que a poesia e a literatura me encontraram antes mesmo que eu saísse à procura delas. Talvez alguns dos dons que carregamos dentro de nós não sejam coisas que escolhemos conscientemente; eles se revelam naturalmente e nos convidam a segui-los. Para mim, a poesia e a literatura se tornaram exatamente isso: uma forma de entender o mundo, de me ouvir mais profundamente e de dar voz a sentimentos que muitas vezes não podem ser expressos por palavras comuns. E acredito que aquela garotinha de seis anos, com um livro nas mãos, já estava me mostrando uma parte do meu caminho.


2.Anthony Rasib: Muitas vezes a poesia nasce da capacidade de enxergar o extraordinário nas coisas simples da vida. Como a sua infância em Ferizaj e seus anos de formação em Prishtina moldaram esse seu jeito especial de observar o mundo, e como essa essência dos seus primeiros anos permanece presente no seu processo criativo?


Mimoza Zymeri: Acho que a minha infância em Ferizaj me ensinou a contemplar a vida através do sentir. Eu era naturalmente atraída pelas coisas pequeninas e aparentemente comuns ao meu redor — as pessoas, suas expressões, suas histórias, a atmosfera da vida cotidiana. Mesmo quando criança, eu era sensível ao que acontecia abaixo da superfície, embora ainda não tivesse palavras para explicar. Ao trilhar meus anos de formação em Prishtina, essa sensibilidade gradualmente se tornou uma consciência mais profunda. Fiquei mais consciente de mim mesma, das minhas emoções, das pessoas ao meu redor e do mundo que eu estava descobrindo. Prishtina abriu um espaço mais amplo para eu pensar, questionar, observar e, talvez o mais importante, decifrar o que se passava no meu íntimo. Acredito que isso ainda está presente no meu processo criativo hoje. Muitas vezes encontro inspiração não em eventos extraordinários, mas nos detalhes silenciosos da vida — um olhar, um silêncio, uma memória, um momento simples que carrega uma emoção mais profunda. Talvez tenha sido isso que meus primeiros anos me ensinaram: que sempre há algo mais por trás do que vemos. Quando ficamos calmos o suficiente para ouvir, até os momentos mais simples podem revelar algo significativo. E acho que é aí que minha escrita começa. Observo o mundo, mas, ao mesmo tempo, escuto o que ele desperta dentro de mim. O que antes eu vivenciava intuitivamente quando criança tornou-se, com o tempo, uma parte da linguagem consciente do meu criar.


3.Anthony Rasib: Seu poema premiado traz no título uma linda metáfora: "Kosovo, Filha das Tempestades e do Brilho do Sol". Como essa dualidade entre momentos difíceis e de luz moldou a sua sensibilidade artística, e como é expressar o amor pelas suas raízes vivendo hoje no contexto cultural da Alemanha?


Mimoza Zymeri: Para mim, Kosovo, Daughter of Storms and Sunshine (Kosovo, Filha das Tempestades e do Brilho do Sol) é mais do que um título. Carrega uma parte da minha história pessoal, mas também algo mais profundo sobre o espírito do lugar de onde venho. Eu era muito jovem quando vivenciei parte da destruição causada pela guerra no Kosovo. Aquelas memórias se tornaram parte da minha paisagem interior, mas nunca quis que elas definissem toda a minha história. Ao lado da dor, também me lembro da força das pessoas, da sua coragem, do seu amor e da sua capacidade de continuar acreditando na vida. Talvez seja daí que vem o significado das tempestades e do brilho do sol para mim. A vida pode conter ambos ao mesmo tempo. Podemos carregar memórias difíceis dentro de nós e, ainda assim, escolher a esperança. Podemos reconhecer o que nos feriu sem permitir que isso tire nossa capacidade de amar, de criar e de seguir em frente. Acredito que algumas das formas mais profundas de criatividade nascem quando transformamos o que vivemos em algo que possa trazer significado, conexão ou luz para os outros. Para mim, a escrita se tornou uma dessas formas. Não escrevo para permanecer na dor do passado, mas para dar-lhe voz, para compreendê-la e, às vezes, para transformá-la em algo curativo. Meu amor pelo Kosovo está profundamente conectado às minhas raízes — à minha língua, à minha infância, às minhas memórias, ao meu povo e a tudo o que moldou a pessoa que me tornei. Viver na Alemanha não me fez sentir mais distante dessas raízes. Em muitos aspectos, a distância me permitiu enxergá-las com mais clareza e apreciá-las mais profundamente. Também aprendi que abraçar outra cultura não significa deixar a sua para trás. Podemos abrir nossos corações para um novo mundo enquanto permanecemos conectados de onde começamos. Nossas raízes podem viajar conosco. E talvez seja isso que Daughter of Storms and Sunshine em última análise significa para mim: venho de um lugar que conheceu tempestades, mas também uma luz extraordinária. E carrego ambos dentro de mim — não como opostos, mas como duas partes da mesma história. Hoje, quando crio, escolho dar mais espaço à luz. Não porque esqueci as tempestades, mas porque sei que a luz se torna ainda mais preciosa quando conhecemos a escuridão.


4.Anthony Rasib: Ao longo de sua jornada como escritora, você construiu um acervo literário marcante. Quantos livros você já publicou até hoje e em quais idiomas suas obras e poesias já estão disponíveis para os leitores ao redor do mundo?


Mimoza Zymeri: Até agora, publiquei dois livros, ambos em albanês. Para mim, cada um deles representa uma parte da minha jornada interior e uma forma de compartilhar com os outros o que vivenciei e senti. Também tenho poesias publicadas em inglês, enquanto o meu terceiro livro será publicado em breve. Já comecei a trabalhar nas traduções e, em breve, meus livros também estarão disponíveis em inglês. Estou trabalhando com grande dedicação para permitir que minhas palavras viagem além das fronteiras e alcancem leitores em diferentes partes do mundo. Acredito que quando uma palavra nasce do coração, ela sempre encontra um caminho para alcançar outro coração.


5.Anthony Rasib: Na infância, as histórias e a literatura muitas vezes nos ensinam a cultivar a paz e a gentileza. Como o seu livro A Força da Gentileza (The Power of Gentleness) resgata esse sentimento lúdico e delicado em um mundo que frequentemente nos cobra dureza e pressa?


Mimoza Zymeri: Acredito que The Power of Gentleness (A Força da Gentileza) é um convite para retornar a essa parte pura e sensível de nós mesmos que frequentemente perdemos à medida que envelhecemos. Em um mundo que constantemente nos exige ser fortes, velozes e prontos para lidar com tudo, meu livro lembra às mulheres, em particular, que elas não precisam renunciar à sua gentileza para serem fortes. No poema, eu falo sobre os desafios que as mulheres enfrentam, as expectativas da sociedade, os sacrifícios que fazem, mas também sobre a força que descobrem dentro de si mesmas. Para mim, a gentileza é a luz que nos permite continuar amando, esperando e acreditando, mesmo quando a vida se torna difícil. Talvez seja essa a conexão com a infância: não perder a nossa capacidade de ver a vida com o coração, de acreditar na bondade e de preservar dentro de nós essa luz simples que não pede nada, exceto permanecer verdadeira. Porque, como eu acredito, a gentileza não nos torna mais fracos; ela nos lembra de quem realmente somos.


6.Anthony Rasib: A busca espiritual em Ame a Si Mesmo (Love Yourself) sugere que olhar para dentro é o primeiro passo para a transformação do ser. Como a sua própria busca por autoconhecimento expande a sua compreensão da mente humana e nutre a dimensão terapêutica dos seus versos?


Mimoza Zymeri: Para mim, amar a si mesmo é uma das forças mais poderosas que carregamos dentro de nós. É uma jornada em direção ao conhecimento e à aceitação de quem somos, e acredito que toda transformação real começa aí — quando fazemos uma pausa e começamos a nos ouvir mais de perto. Minha própria busca por autoconhecimento também me ajudou a compreender a mente humana em um nível mais profundo. Passei a entender como nossas experiências, feridas, medos e emoções influenciam a maneira como vemos a nós mesmos e a nossa vida. Mas também aprendi que o nosso passado não precisa determinar o nosso futuro. Mesmo através da dor, podemos aprender, crescer e descobrir uma nova força dentro de nós. Love Yourself (Ame a Si Mesmo) é uma obra em prosa na qual eu quis compartilhar precisamente essa mensagem: voltar-se para dentro, escutar a si mesmo com maior amor e compreender que o amor-próprio é a base de todo relacionamento saudável. Essa forma de ver a vida também influencia a minha escrita. Acredito que as palavras podem nos ajudar a entender melhor o que sentimos, a aceitar o que vivemos e a nos reconectar com a força que existe em nosso interior. Se um poema ou uma página que escrevo trouxer a alguém um pouco de luz, esperança ou coragem para continuar, então sinto que minha escrita encontrou o seu propósito. Em última análise, para mim, amar a si mesmo significa aceitar quem você é, ouvir sua voz interior e confiar que você pode começar de novo sempre que a vida lhe pedir.


7. Anthony Rasib: Em muitas tradições do yoga, o silêncio e a imobilidade do corpo são o espaço onde a verdadeira consciência desperta. Como a quietude alcançada no yoga te ajuda a ouvir a intuição e encontrar as palavras exatas para as suas poesias?


Mimoza Zymeri: Para mim, a quietude que vivencio através do yoga e da meditação cria o espaço onde posso ouvir minha intuição com mais clareza. Quando o corpo se acalma e a mente se afasta, mesmo que por um momento, do ruído da vida cotidiana, me torno mais presente para o que está acontecendo dentro de mim. Nesses momentos, não tento forçar as palavras de um poema. Em vez disso, permito que elas surjam naturalmente. Às vezes é um sentimento, uma memória, uma imagem ou até mesmo um pequeno pensamento que me traz a primeira palavra, e então os versos começam a ganhar forma. Acho que o yoga me ensinou a confiar nesse silêncio e na voz interior que habita em mim. Quando não forço a criatividade, mas me dou tempo e espaço para simplesmente ser, as palavras que vêm são mais honestas e mais precisas. Para mim, essa é a conexão mais bonita entre o yoga e a poesia: a quietude me ajuda a escutar o que minha intuição já sabe, e a poesia me dá as palavras para expressar.


8. Anthony Rasib: Unir áreas aparentemente tão distintas quanto a ciência econômica, a saúde e a literatura revela uma mente multifacetada. De que forma essa síntese entre o método, a compaixão e a intuição poética se reflete na estrutura e na mensagem dos seus livros?


Mimoza Zymeri: Ao meu ver, esses campos nunca estiveram realmente separados. A economia me ensinou a ver a estrutura e as relações entre as coisas, a saúde me ensinou a ver o ser humano com compaixão, enquanto a literatura e a poesia me ensinaram a escutar o que nem sempre pode ser expresso em palavras. Acredito que, quando reunimos método, compaixão e intuição, criamos uma maneira mais completa de compreender a vida. O método nos dá clareza e direção, a compaixão nos lembra de não perder de vista o ser humano, e a intuição nos guia em direção ao que é verdadeiro para nós. Essa síntese naturalmente se tornou parte dos meus livros também. Em sua estrutura, procuro trazer clareza, enquanto em sua mensagem quero criar espaço para reflexão, sensibilidade e mudança interior. Acredito que as palavras têm o poder de nos ajudar a nos ver com mais amor. No fim das contas, estejamos falando de economia, saúde ou poesia, eu sempre retorno ao mesmo princípio: todos nós precisamos ser compreendidos, ouvidos e, acima de tudo, aprender como nos aceitar e nos amar. Quando a forma como nos vemos começa a mudar, a forma como vivenciamos a vida começa a mudar também.


9. Anthony Rasib: A enfermagem coloca o profissional diante da fragilidade, da dor e da superação humana todos os dias. Como enfermeira, você já viveu alguma situação no cuidado com um paciente que te tocou de forma tão profunda a ponto de se transformar diretamente em inspiração para um poema?


Mimoza Zymeri: Sim, já vivenciei situações assim. Ao longo do meu trabalho como enfermeira, passei por momentos com pacientes que me tocaram profundamente, especialmente ao testemunhar de perto o medo, a dor e a incerteza deles, mas também a sua incrível força para continuar. Uma dessas experiências permaneceu particularmente guardada no meu coração. Foi um momento em que percebi que, além dos cuidados médicos, um paciente também precisa de uma palavra de esperança, de alguém que o escute e de alguém que o lembre de que, mesmo nos dias mais difíceis, ainda existe luz. Deste sentimento nasceu o poema Light After Pain (Luz Após a Dor). Eu o escrevi como uma mensagem para pacientes que estão enfrentando a dor, o medo e noites longas, para lembrá-los de que eles não são definidos pela enfermidade que estão vivenciando. Eles são força, são esperança e, mesmo quando parece não restar mais nenhuma luz, ainda pode haver dentro deles um motivo para acreditar. O poema se tornou a minha forma de expressar algo que às vezes não conseguimos colocar em palavras apenas através dos cuidados de enfermagem: que após a dor, a esperança pode emergir, e que cada novo dia é mais uma oportunidade para seguir em frente.


10. Anthony Rasib: A literatura nos permite cruzar oceanos e conectar almas. O que mais te fascina ou chama a atenção na cultura e no povo brasileiro? E o que você gostaria que os leitores do Brasil descobrissem sobre a verdadeira essência, a alma e a poesia do Kosovo — essa riqueza humana e espiritual que raramente é mostrada pela grande mídia?


Mimoza Zymeri: O que mais me atrai na cultura brasileira e em seu povo é o seu calor humano e a forma única como abraçam a vida. Aqui na Alemanha, tenho amigos do Brasil e tive a oportunidade de conhecer pessoas incrivelmente gentis, abertas, alegres e cheias de energia positiva. Eu também amo muito a língua portuguesa. Para mim, soa incrivelmente bela e acolhedora. Talvez seja por isso que me sinto ainda mais conectada à ideia de que a literatura pode criar pontes entre as pessoas, mesmo quando vivem em países diferentes e falam idiomas diferentes. Eu adoraria que os leitores no Brasil descobrissem um lado diferente do Kosovo, além do que costumamos ver na mídia. Gostaria que descobrissem o Kosovo através de seu povo, através de seu coração e sua alma, de suas famílias, do amor, da hospitalidade e da força. O Kosovo vivenciou muita dor, mas essa não é a única história que ele tem a contar. Há também tanta luz, amor e esperança. Acredito que minha poesia também vem desse lado do Kosovo — das experiências humanas, das feridas, mas também do desejo de curar, de amar e de recomeçar. Me deixaria muito feliz se, um dia, meus livros também fossem traduzidos para o português. Seria uma forma linda de fazer minhas palavras chegarem aos leitores brasileiros e de criar uma ponte entre o Kosovo e o Brasil. E claro, eu adoraria visitar o Brasil um dia. Até agora, conheci um pouco através dos meus amigos brasileiros aqui na Alemanha, mas espero que um dia eu possa vivenciar isso por mim mesma — ver, ouvir sua língua bonita e sentir essa energia de perto, essa energia sobre a qual ouvi falar tanto e que já pude vivenciar através do seu povo.


11.Anthony Rasib: Toda região impõe seus próprios desafios para a criação e circulação da arte. Olhando para a sua vivência entre a Europa Ocidental e os Bálcãs, quais são os maiores obstáculos que uma autora enfrenta na Alemanha e no Kosovo para ter sua voz ouvida e respeitada no mercado literário atual?


Mimoza Zymeri: Acredito que um dos maiores desafios para uma autora hoje é encontrar o espaço onde sua voz possa ser ouvida no meio de tantas outras vozes. Isso é verdade tanto no Kosovo quanto na Alemanha, embora os desafios sejam diferentes. No Kosovo, o mercado literário é menor, e as oportunidades de promoção, distribuição e alcance de um público mais amplo são mais limitadas. Na Alemanha, por outro lado, o mercado é muito maior e a competição é extremamente forte. Para uma autora vinda dos Bálcãs, há também o desafio do idioma, da cultura e de encontrar seu lugar dentro de um novo ambiente literário. Mas acredito que as dificuldades nunca devem ser o que nos define. Para mim, o mais importante é não perder a fé na sua própria voz e no que você tem a dizer. Uma autora deve escrever sobre o que sente, o que vivencia e o que acredita que possa tocar outras pessoas também. Acredito fortemente no poder das palavras. Um livro pode viajar para lugares onde a autora ainda não pôde ir. Ele pode atravessar idiomas, fronteiras e culturas, e tocar o coração de alguém que você talvez nunca tenha conhecido. É por isso que, em vez de ver as dificuldades como muros, procuro vê-las como pontes que ainda precisam ser construídas. Quero que minha voz seja ouvida não porque busco atenção, mas porque tenho algo humano para entregar: esperança, amor, dor, cura e fé na vida. Acredito que quando você escreve com o coração e permanece fiel a si mesma, sempre haverá alguém, em algum lugar, que encontrará uma parte de si em suas palavras. E talvez essa seja a forma mais bonita de conquistar o respeito na literatura — não tentando ser a voz mais alta, mas sendo uma voz honesta.

12. Anthony Rasib: Espaços de entrevista como este promovidos pelo GLIP aproximam o público da essência humana por trás dos livros. Para você, qual é a relevância de uma instituição literária brasileira promover esse tipo de acolhimento e destaque para autores internacionais?


Mimoza Zymeri: Acredito que um espaço como o criado pelo GLIP tem um valor extraordinário porque nos permite ver não apenas o livro, mas também a pessoa por trás dele. Cada autor carrega uma história, emoções, experiências e um pedaço de sua alma, e quando recebe a oportunidade de compartilhar tudo isso com o público, cria-se uma conexão muito mais profunda. Para mim, o fato de uma instituição literária brasileira abrir suas portas para autores internacionais é um gesto lindo de respeito e humanidade. A literatura não conhece fronteiras, e as pessoas não precisam falar o mesmo idioma para serem tocadas pela mesma emoção. É por isso que gostaria de agradecer sinceramente ao GLIP por criar este espaço e por me dar a oportunidade de compartilhar minha voz, minha história e um pedaço da minha alma com os leitores brasileiros. Para mim, isto é mais do que uma entrevista; é uma ponte conectando o Kosovo e o Brasil através das palavras e das emoções. Acredito que o mundo precisa de mais espaços como este — espaços onde as pessoas não são julgadas de onde vêm, mas são escutadas pelo que carregam em seus corações. Porque um livro pode começar em um canto do mundo, mas quando é escrito com amor, ele não pertence mais apenas ao seu autor. Ele se torna uma luz que pode alcançar qualquer coração, em qualquer lugar do mundo. E por esta oportunidade, sou profundamente grata ao GLIP, e também a você, por abrir este belo espaço e permitir que eu faça parte dele.


13. Anthony Rasib: Para encerrar nossa conversa, que semente de inspiração você gostaria de plantar no caminho de uma jovem leitora brasileira ou kosovar que deseja contar suas histórias ao mundo e fazer da palavra o seu refúgio?


Mimoza Zymeri: Se eu pudesse plantar uma semente de inspiração ao longo da jornada de uma jovem leitora brasileira ou kosovar que deseja compartilhar suas histórias com o mundo, eu diria a ela primeiro: acredite na sua voz. Não pense que sua história precisa ser extraordinária para ter valor. Às vezes, são precisamente a nossa dor, os nossos sonhos, os nossos medos e os momentos mais simples da nossa vida que podem tocar outro coração de forma mais profunda. Se você deseja fazer da palavra escrita o seu santuário, entre nele sem medo. Escreva para se curar, para se compreender e para compartilhar com os outros o que aprendeu pelo caminho. Não permita que o medo do julgamento ou o pensamento de que "não sou boa o suficiente" silenciem a sua voz. E a cada jovem mulher, seja do Kosovo ou do Brasil, eu gostaria de plantar esta crença: suas palavras têm um lugar neste mundo. Talvez hoje você esteja escrevendo apenas para si mesma, mas amanhã suas palavras podem se tornar esperança, conforto ou luz para outra pessoa. Porque quando você escreve sua verdade com amor, suas palavras não permanecem apenas no papel. Elas viajam. Elas tocam pessoas que você talvez nunca conheça. E, às vezes, uma história escrita a partir do coração de uma jovem no Kosovo ou no Brasil pode lembrar a outra mulher, em algum lugar do mundo, que ela não está sozinha. Essa é a semente que eu gostaria de plantar: acredite em si mesma, não tenha medo de contar sua história e permita que suas palavras se tornem um santuário para você e uma luz para os outros.


Quem é Mimoza Zymeri


Mimoza Zymeri nasceu em 20 de setembro de 1986, em Ferizaj, Kosovo. Ela possui bacharelado em Economia e bacharelado em Enfermagem, ambos concluídos em Prishtina. Atualmente vive e trabalha na Alemanha, onde, ao lado de sua vida profissional, dá continuidade ao seu trabalho criativo e literário.

Desde cedo, Mimoza Zymeri viu-se atraída pelo universo da palavra escrita. A poesia e a prosa tornaram-se sua forma de expressar suas experiências, sensibilidade e observações sobre a vida, o espírito humano e a natureza.

Sua obra literária foi publicada em diversos jornais e revistas literárias, enquanto alguns de seus poemas também foram incluídos na antologia “Anembanë”.

Em 2024, seu poema “Kosovo, Filha das Tempestades e do Brilho do Sol” foi honrado com o Prêmio Jovens Talentos no Encontro de Poesia “Ymer Elshani”.

Uma parte importante do seu mundo criativo está conectada à meditação e à prática do yoga, as quais ela enxerga como caminhos para a paz interior, a autoconsciência e uma conexão mais profunda consigo mesma. Essas práticas são frequentemente refletidas em sua forma de perceber a vida e nos temas que explora através de sua escrita.

Em suas obras, ela explora temas como o amor, a paz interior, o amor-próprio e a beleza silenciosa da vida cotidiana. Para ela, a literatura é uma maneira de adentrar o mundo interior, compreender a si mesma mais profundamente e dar voz àquilo que muitas vezes permanece não dito.

Em 2025, publicou sua coletânea de poesias A Força da Gentileza, sendo Ame a Si Mesmo o seu segundo livro, escrito em prosa.


segunda-feira, agosto 17, 2026

ARTIGO DE ANTHONY RASIB



 A Farsa do Benefício Cancelado: A Quem Interessa o Medo do Eleitor?


Autoria: Anthony Rasib, Jornalista e Analista de Assuntos Políticos.


Quando chega o período eleitoral, os serviços acumulados há anos começam a ser feitos às pressas — isso todos sabemos. Não se trata apenas do buraco na rua que é coberto ou da calçada que ganha pintura nova. É também a época da aparição de "candidatos fantasmas" em pastelarias, bares e, principalmente, em templos religiosos. Esse comportamento não pertence a apenas um tipo de ideologia política; faz parte de uma estratégia sistemática de "ferroada de gado" para marcar e dividir o povo entre direita e esquerda, aplicando a velha máxima do "dividir para conquistar".

Dentro desses movimentos, há inclusive pessoas que trabalham no governo espalhando boatos para cidadãos com menos conhecimento, dizendo: "Olha, se você não votar, vai perder seus benefícios, não vai poder se aposentar ou viajar".

Seria esse boato proposital para forçar o eleitor a votar sem propostas reais? Você não se sente, às vezes, forçado a votar sem que tenha um candidato à altura dos seus pensamentos e ideologias para o Brasil, mas acaba votando apenas por medo de outro ganhar?

A verdade é direta: essa informação sobre perder benefícios é completamente falsa. Há décadas o boato circula pelo país, mas não existe nenhuma previsão legal que vincula a situação eleitoral à concessão ou manutenção de aposentadorias, pensões, BPC/LOAS ou qualquer outro benefício do INSS — seja para adultos entre 18 e 69 anos, seja para idosos.


Mito x Realidade: o que a lei prevê de verdade


O voto é obrigatório para cidadãos alfabetizados entre 18 e 70 anos. É facultativo para analfabetos, jovens de 16 e 17 anos e pessoas com 70 anos ou mais. Quem deixa de votar e não justifica a ausência fica sujeito às regras do Código Eleitoral (Lei nº 4.737/1965, artigo 7º).

Agora, que fique claro ao leitor: dentro desta realidade jurídica, aquele que não vota, não justifica e não paga a multa pode, sim, não se inscrever em concurso público nem ser empossado em cargo ou função pública; não obter passaporte ou carteira de identidade; não renovar matrícula em instituições de ensino públicas ou fiscalizadas pelo governo; não participar de concorrências públicas; não praticar atos que exijam quitação eleitoral (como emitir alguns documentos em repartições diplomáticas); e não receber salários ou proventos de empregos e funções públicas (servidores públicos, autarquias, fundações etc.) a partir do segundo mês seguinte à eleição — restrição que, ironicamente, atinge justamente o servidor público que eventualmente espalhe esse boato. Além disso, quem faltar a três turnos consecutivos sem justificar e sem pagar a multa pode ter o título eleitoral cancelado.

Nenhuma dessas sanções menciona aposentadoria, pensão, BPC/LOAS ou qualquer benefício do INSS.

Idosos e adultos: o INSS cancela o pagamento de quem não vota?

A regra que protege o benefício é exatamente a mesma para todos. Para os adultos entre 18 e 69 anos, o voto é obrigatório, e caso fiquem irregulares, sofrerão as restrições civis previstas na legislação eleitoral, mas sem perder o direito à aposentadoria. Já para os maiores de 70 anos, o voto é facultativo, de modo que as penalidades eleitorais nem sequer se aplicam, afastando qualquer risco de bloqueio. Em ambas as situações, a Justiça Eleitoral e o INSS operam como sistemas totalmente independentes, sem qualquer integração que permita a suspensão ou o cancelamento de pagamentos previdenciários por pendência eleitoral.

Terrorismo psicológico ou confusão: por que o boato continua vivo?

O mal-entendido ocorre devido ao fato de o ordenamento jurídico exigir a regularidade perante a Justiça Eleitoral para atos específicos da vida civil (com destaque para trâmites em repartições públicas e expedição de passaportes). Dessa forma, muitos cidadãos — inclusive agentes do Estado desinformados ou motivados a coagir o eleitor — ampliam indevidamente esse alcance, imaginando que o INSS impõe essa mesma exigência, premissa que carece de fundamento.

Justificou, pagou, resolveu: veja como fica seu título e seu benefício

Ao justificar a ausência dentro do prazo legal (ou posteriormente, de forma presencial no cartório eleitoral) e efetuar o pagamento da multa devida, o cidadão regulariza plenamente sua situação perante a Justiça Eleitoral. Com essa quitação, todas as restrições administrativas e civis impostas pela pendência deixam de ser aplicadas, permitindo que o eleitor exerça normalmente o direito ao voto nos pleitos seguintes, desde que seu documento não tenha sido definitivamente cancelado. Vale ressaltar que, em todo esse processo de regularização, não ocorre qualquer prejuízo ou interferência no recebimento de aposentadorias, pensões ou demais proventos previdenciários.

Como regularizar a situação

Para regularizar a situação, o eleitor deve acessar o aplicativo e-Título ou o site do TSE para verificar possíveis pendências. Se ainda estiver dentro do prazo, basta apresentar a justificativa; caso contrário, deve-se emitir e pagar a guia da multa cobrada. Em cenários mais complexos ou quando o título já tiver sido cancelado, o cidadão precisa comparecer presencialmente ao cartório eleitoral de sua zona para concluir o atendimento.

Manter a situação eleitoral em dia é recomendável para evitar transtornos administrativos (como renovar a identidade ou tirar passaporte), mas não é condição para receber benefícios do INSS. Além disso, estar irregular perante a Justiça Eleitoral não cassa nem interrompe seus direitos adquiridos, tampouco impede que você venha a exercê-los caso já tenha preenchido os requisitos legais para sua concessão.


Fontes

1. Tribunal Superior Eleitoral (TSE) – Consequências de não votar, não justificar e não pagar a multa: https://www.tse.jus.br/comunicacao/noticias/2024/Julho/veja-as-consequencias-para-o-eleitor-que-nao-votou-nao-justificou-nem-pagou-multa

2. TSE – Obrigatoriedade do voto e penalidades: https://www.tse.jus.br/servicos-eleitorais/titulo-eleitoral/voto-obrigatoriedade

3. TSE – Justificativa eleitoral (lista completa das restrições): https://www.tse.jus.br/servicos-eleitorais/justificativa-eleitoral

4. Código Eleitoral (Lei nº 4.737/1965, artigo 7º) – Texto legal que estabelece as consequências

5. G1 (Fato ou Fake) – Desmentindo boatos semelhantes sobre bloqueio de benefícios e CPF: https://g1.globo.com/fato-ou-fake/noticia/2019/08/02/e-fake-que-idosos-com-voto-facultativo-que-nao-fizerem-biometria-terao-cpf-cancelado-e-beneficios-bloqueados.ghtml

6. G1 – “O que acontece se eu não votar?” (resumo oficial das consequências): https://g1.globo.com/politica/eleicoes/2024/noticia/2024/10/03/eleicoes-2024-o-que-acontece-se-eu-nao-votar-veja-perguntas-e-respostas.ghtml

7. TSE – Comunicado deixando claro que não há integração entre voto e benefícios do INSS (prova de vida): https://www.tse.jus.br/comunicacao/noticias/2024/Setembro/e-mentira-que-o-voto-valera-como-prova-de-vida-nas-eleicoes-2024

terça-feira, junho 16, 2026

ENTREVISTA EXCLUSIVA COM A POETISA FABIANA BATISTA COELHO POR ANTHONY RASIB

 

ENTREVISTA EXCLUSIVA COM A POETISA FABIANA BATISTA COELHO

Organização: Grêmio Literário Internacional Poesiarte (GLIP)

Entrevistada: Fabiana Batista Coelho, Membro Titular e Tesoureira do GLIP

Entrevistador: Anthony Rasib, Secretário Executivo do GLIP


1. Como você, na qualidade de Tesoureira e Membro Titular do GLIP, define a missão essencial do Grêmio no cenário literário atual, e qual é o maior diferencial que a instituição traz para novos poetas e escritores?


Resposta: É muito importante e desperta o interesse na literatura, permitindo que as pessoas passem a conhecer mais a história de nosso povo. É uma missão essencial, pois agrega oportunidade de aprendizado e conhecimento.


2. Toda trajetória literária costuma ter um despertar. Olhando para a sua infância, quais são as suas memórias mais remotas em relação aos livros? Como era o cotidiano em casa com seus pais, Antônia e Severino, e de que forma o acesso à leitura — ou a falta dele — moldou a sua sensibilidade para se tornar a poetisa que é hoje?


Resposta: Lembro muito do "Menino Maluquinho" do Ziraldo, "Marcelo, Marmelo, Martelo" de Ruth Rocha e "A Ilha Perdida" de Maria José Dupré, livros da minha infância. Minha mãe era analfabeta, a qual instruí para a leitura, mas me influenciou muito com sua voz, pois amava cantar. E quando a instruí a ler, foi muito emocionante para mim vê-la lendo e cantando a cantata de Natal na Igreja. Meu pai, paraibano, quando me colocava de castigo, no local eu via a paisagem do morro e da estrada, que me inspirava e que eu registrava no diário que minha professora de Língua Portuguesa, Miriam, me deu.


3. Você nasceu no Rio de Janeiro e carrega em suas raízes a influência de Campina Grande, por parte de seus pais. Como essa mescla cultural reflete na sua forma de construir os seus versos e o que você ainda carrega da essência da Paraíba dentro de si?


Resposta: A dança e o canto são a forma de me expressar, como sempre me dizia minha mãe no ditado popular: "quem canta e dança os seus males espanta". Das músicas, eu viajo nas letras acompanhando as danças.


4. A vida muitas vezes nos leva a caminhos diversos. Como a sua interação com personalidades de mundos tão distintos — do Papa Francisco a astros do rock como Steven Tyler — influencia a sua percepção humana e a sua produção poética? Nesse vasto mosaico de figuras que cruzaram o seu caminho, qual é a verdadeira importância desses encontros para a sua trajetória e qual deles, entre tantos, foi o mais emocionante de vivenciar?


Resposta: O momento do Papa, ao apertar a sua mão, e o show onde estive no palco com Steven Tyler, além do primeiro show do cantor Pablo, onde recebi dele um CD autografado, foram marcantes. "Não tenho tudo, mas posso todas as coisas" é a frase que me resume. A saudade é viver o momento; é um sentimento que consegui distinguir de diversas formas. Mesmo a pessoa não sendo do seu convívio, a saudade se resume em um único momento. Não precisa de convívio para ter saudade.


5. Como você definiria o seu próprio estilo poético? Quais elementos, temas ou formas você elege como a "assinatura" da sua poesia?


Resposta: Intensidade em de tudo um pouco. Todos os momentos inspiram.


6. Muito se debate sobre a origem da criação literária. Na sua opinião, a poesia é um dom de nascença, algo que já nasce com o indivíduo, ou é uma habilidade que pode ser aprendida e cultivada por qualquer pessoa através do estudo e da prática?


Resposta: É um dom, mas que pode ser aperfeiçoada depois.


7. Na sua opinião, qual é o valor e a importância de projetos de comunicação como esta entrevista para o GLIP? De que forma você acredita que este tipo de divulgação beneficia e incentiva outros Membros Titulares e novos talentos do Grêmio?


Resposta: O valor é estabilizar a literatura e buscar conhecimento de outras. Tem muita importância, pois em mim incentivou e sou prova disso. Desperta e incentiva.


8. Você é mãe e avó de três netos. Como o amor pela família e o papel de matriarca se entrelaçam com a sua vocação de poetisa?


Resposta: É a minha maior inspiração.


9. Além da sua atuação profissional e familiar, o seu lar é compartilhado com o nosso presidente, o poeta Rodrigo Octavio. Como é o dia a dia em uma casa habitada por dois poetas? De que forma essa convivência diária influencia o processo criativo de ambos?


Resposta: Rsrs. Às vezes a poesia nasce. Uma poesia no nosso dia a dia é bem legal. Sempre tem uma intensidade, onde a poesia nasce no cotidiano. Ver o trabalho literário dentro de casa é bem legal. Como diz o ditado, "ninguém é perfeito". Eu procuro não deixar o nosso dia cair na rotina e procuro fazer do nosso dia uma poesia.


10. Qual é a sua visão sobre o cenário atual para os autores brasileiros? Na sua opinião, quais são as principais carências de incentivo que impedem o escritor de se profissionalizar e ocupar o seu devido lugar na sociedade?


Resposta: Quem não tem o dom, mas tem poder aquisitivo, tem espaço. Estamos numa decadência literária; o dinheiro fala mais alto. Falta oportunidade para quem tem o dom, mas não tem condições financeiras.


11. Como Tesoureira do GLIP e alguém que transita pelo meio literário, qual é a sua opinião sobre a forma como certas Academias de Letras e organizações de escritores priorizam aspectos financeiros em detrimento da qualidade literária de seus membros e do apoio genuíno ao desenvolvimento dos poetas e escritores?


Resposta: Total desrespeito e falta de oportunidade para os que merecem.


12. Vivemos um momento de transição tecnológica, onde surgem empresas que oferecem a criação de livros inteiros através de Inteligência Artificial. Para uma poetisa, você encara esse fenômeno como um avanço na democratização da escrita ou como um retrocesso para a autenticidade e a essência da alma humana na literatura?


Resposta: Com certeza, um retrocesso para a criatividade humana. Não apoio a IA em substituir nossa verdadeira criatividade.

quarta-feira, maio 27, 2026

Entrevista com a acadêmica honorária Amal Al-Desouky por Anthony Rasib


 Entrevista exclusiva com Amal Al-Desouky por Anthony Rasib


Organização: Grêmio Literário Internacional Poesiarte (GLIP)

Convidada: Amal Mohamed Al Desouky (Acadêmica Honorária do GLIP)

Entrevistador: Anthony Rasib, Secretário Executivo do GLIP


1.Durante sua ilustre trajetória na Rádio Cairo, você foi a voz definitiva que rompeu o silêncio entre o Egito e o mundo lusófono ao traduzir o Alcorão Sagrado e os sermões de sexta-feira. Como é, hoje, olhar para trás e dimensionar o peso literário e espiritual de ter sido, por mais de trinta anos, o único canal de interpretação da fé para milhões de ouvintes em nove países? Qual era o sentimento ao saber que sua voz era o fio condutor que unia o sagrado ao cotidiano de pessoas em terras tão distantes?

Amal: Ao olhar para trás, sinto uma profunda gratidão e também um grande senso de responsabilidade por tudo o que vivi nesse período. Durante mais de trinta anos, tive a honra de contribuir para aproximar o Egito do mundo lusófono por meio do meu trabalho na Rádio Cairo em português, Rádio Difusora da República Árabe do Egito.

Entre aqueles programas que eu apresentava, como você mencionou, a interpretação do Alcorão Sagrado e os sermões de sexta-feira, além de outros programas como Conversando com os ouvintes, A sua voz na Rádio Cairo, Egito maravilhoso, Egito na internet, Canções da semana, O mundo dos esportes, Egito Imortalizado... veredictos internacionais, etc., sempre encarei esse trabalho não apenas como uma função profissional, mas como uma missão de diálogo, compreensão e respeito entre culturas e crenças.

Saber que minha voz chegava a milhões de pessoas em diferentes países era algo que me emocionava e, ao mesmo tempo, me exigia muito cuidado. Eu tinha plena consciência de que cada palavra precisava ser fiel ao significado original e, ao mesmo tempo, acessível ao público. Era como construir uma ponte entre o sagrado e o cotidiano, entre línguas e realidades distintas.

Vale a pena mencionar que o esclarecimento da mensagem moderada do Islã e a correção de concepções equivocadas sobre a religião constituem um dos principais e importantes objetivos das Emissoras Internacionais da República Árabe do Egito há mais de setenta anos.

2. Toda trajetória de sucesso costuma ter um despertar, e a sua carreira é uma prova viva para o público no Brasil de que a mulher no Islã não apenas ocupa espaços, mas lidera frentes intelectuais de prestígio. No seu caso, como foi utilizar sua voz para enfrentar e desmentir preconceitos em solo brasileiro, mostrando que o estudo e a liderança feminina são pilares da sua fé e cultura? Houve alguma influência familiar ou mentoria que a encorajou a seguir esse caminho de sucesso, desde a sua graduação em línguas até se tornar uma referência internacional na comunicação?

Amal: Acredito que, mais do que enfrentar preconceitos diretamente, o meu trabalho sempre foi no sentido de construir pontes por meio do conhecimento e do diálogo. Ao longo da minha trajetória, especialmente na comunicação com o público brasileiro, procurei mostrar, na prática, que o Islã valoriza profundamente o conhecimento, a educação e a participação ativa das mulheres na sociedade.

Usar a minha voz nesse contexto foi, acima de tudo, uma forma de aproximar realidades que muitas vezes são vistas de maneira simplificada ou estereotipada. Em vez de responder apenas com argumentos, eu buscava demonstrar, através do conteúdo que produzia, a riqueza cultural e intelectual da minha formação e da minha fé.

Nós, na Rádio Cairo, temos um programa semanal intitulado “As Mulheres Egípcias” — programa que vai ao ar em diferentes línguas, apresentando as realizações e conquistas da mulher egípcia ao longo das décadas.

Sem dúvida, tive influências importantes nesse caminho. Minha formação acadêmica em línguas foi fundamental, mas também contei com o apoio da minha família, que sempre valorizou o estudo e a dedicação, além de mentores no meu trabalho que acreditaram no meu potencial e me incentivaram a seguir na área da comunicação internacional.

3. Olhando para a sua própria juventude no Cairo, quais são as suas memórias mais remotas com o rádio e os livros? Além dessas lembranças, como foi para você o sentimento de enfrentar o desafio de uma cultura nova ao chegar no Brasil? Quais foram as maiores dificuldades de adaptação que encontrou e, por outro lado, quais similaridades surpreendentes você notou entre o povo brasileiro e o egípcio que ajudaram a construir essa ponte em sua vida?

Amal: Ao olhar para a minha juventude no Cairo, as minhas memórias com o rádio e os livros são profundamente afetivas. O rádio sempre esteve presente no cotidiano, e continua até hoje em dia, como uma janela para o mundo, trazendo vozes, histórias e diferentes culturas para dentro de casa. Já os livros foram, desde cedo, um espaço de descoberta e imaginação, onde comecei a desenvolver o meu interesse pelas línguas e pela comunicação.

No meu caso, a minha aproximação com o Brasil não aconteceu por meio de uma vivência direta no país, mas através do meu trabalho e do contato constante com a língua e a cultura brasileira. Ao longo dos anos, tive a oportunidade de dialogar com diplomatas, visitantes, ouvintes brasileiros e também de traduzir romances brasileiros, o que me permitiu construir uma compreensão muito próxima da realidade cultural do Brasil.

Naturalmente, esse processo também trouxe desafios, especialmente no que diz respeito às nuances da língua e às particularidades culturais que só se revelam no contato contínuo. Foi um aprendizado construído com escuta, atenção e troca.

Por outro lado, algo que sempre me chamou a atenção foram as semelhanças entre os dois povos. Tanto o brasileiro quanto o egípcio valorizam muito as relações humanas, a hospitalidade, a família e o convívio social. Essa identificação facilitou muito essa aproximação cultural, mesmo à distância.

Acredito que essa experiência mostra que o intercâmbio cultural não depende apenas da presença física, mas também da abertura para o diálogo e da disposição para compreender o outro.

4.Suas traduções levaram clássicos e autores contemporâneos do Brasil para o mundo árabe. Como foi transpor a crítica social e o lúdico dessas obras para outro idioma e qual a emoção de ver nomes como Jorge Amado e Raphael Montes ganhando vida em árabe por suas mãos?

Amal: Levar obras brasileiras para o árabe é, antes de tudo, uma grande responsabilidade cultural e humana. Cada texto carrega não apenas palavras, mas também emoções, referências sociais, humor, ironia e formas muito próprias de ver o mundo. O maior desafio é preservar a alma da obra, fazendo com que o leitor árabe sinta o mesmo impacto e a mesma proximidade que o leitor brasileiro.

No caso da crítica social, procuro transmitir o contexto e a intensidade das questões abordadas, respecting as diferenças culturais entre os dois mundos. Já o lado lúdico e criativo exige muita sensibilidade linguística, porque certas expressões ou jogos de linguagem precisam ser recriados para manter o efeito original.

Ver autores contemporâneos como Raphael Montes chegando ao público árabe através das minhas traduções e de outras mais, é uma emoção muito especial. É como construir uma ponte entre culturas distantes e permitir que novas vozes brasileiras sejam descobertas, apreciadas e vividas em outra língua. Isso me dá a sensação de que a literatura realmente ultrapassa fronteiras e aproxima pessoas.

Raphael Montes é um dos autores contemporâneos mais importantes da literatura brasileira, conhecido pelos seus romances de suspense psicológico e narrativa envolvente. Suas obras conquistaram leitores em vários países, despertando grande interesse também no público árabe através das traduções.

5. Na sua opinião, qual é o valor e a importância de projetos de comunicação como esta entrevista para o GLIP? De que forma você acredita que este tipo de divulgação beneficia e incentiva outros Membros e novos talentos que buscam o intercâmbio cultural?

Amal: Boa pergunta. Acredito que projetos de comunicação como esta entrevista têm um valor muito significativo, especialmente no contexto do GLIP, porque ampliam vozes e tornam trajetórias mais visíveis e acessíveis. Muitas vezes, o trabalho realizado por membros e profissionais da área não chega ao público de forma estruturada, e iniciativas como essa ajudam a dar forma e reconhecimento a essas experiências.

Além disso, esse tipo de divulgação tem um papel importante na inspiração de novos talentos. Quando as pessoas têm acesso a histórias reais, com desafios, aprendizados e conquistas, elas conseguem se enxergar nesse caminho e perceber que o intercâmbio cultural é algo possível e enriquecedor.

Também vejo como uma oportunidade de fortalecer redes. Ao compartilhar experiências, criamos pontos de conexão entre diferentes culturas, gerações e áreas de atuação, o que é essencial para o crescimento coletivo.

No fim, acredito que o maior benefício está justamente nisso: transformar experiências individuais em referências que possam motivar, orientar e abrir portas para outros.

6.Com sua vasta experiência no ensino de português para egípcios e árabe para brasileiros, como você acredita que a literatura e o idioma podem transformar a vida de um estudante? O que mais a encanta no contato direto entre o aluno e a descoberta de uma nova cultura?

Amal: Acredito profundamente que a língua e a literatura têm um poder transformador na vida de qualquer estudante, porque vão muito além da comunicação. Aprender um novo idioma é, na verdade, aprender uma nova forma de pensar, de interpretar o mundo e de se relacionar com o outro. Já a literatura permite um mergulho mais profundo, oferecendo ao aluno acesso às emoções, valores e contextos culturais que moldam aquela sociedade.

Ao longo da minha experiência ensinando português para os árabes e a língua árabe para os brasileiros, percebi que esse processo transforma não apenas o conhecimento linguístico, mas também a forma como o aluno enxerga a si mesmo e o outro. Há um ganho evidente em empatia, abertura e curiosidade.

O que mais me encanta é justamente esse momento de descoberta — quando o aluno começa a perceber que consegue compreender, se expressar e, aos poucos, pertencer àquela nova realidade cultural. É um processo muito humano, de aproximação e de quebra de barreiras.

7.Você participou de momentos históricos na rádio e traduziu obras que atravessam fronteiras, mas também possui uma produção literária própria muito rica. Como é para você ver seu nome hoje como Acadêmica Honorária do GLIP e de que maneira suas vivências entre o Egito e o Brasil moldam a sua própria escrita e os temas que você escolhe eternizar em seus textos pessoais?

Amal: Ser reconhecida como Acadêmica Honorária do GLIP é, para mim, uma grande honra e tem um significado muito especial, por se tratar da única homenagem formal que recebi ao longo de toda a minha trajetória profissional na Rádio Cairo.

Depois de tantos anos dedicados à comunicação e ao intercâmbio cultural, receber esse reconhecimento me emociona profundamente, porque representa a valorização de um trabalho construído com dedicação, responsabilidade e compromisso com a aproximação entre culturas.

Minhas vivências entre o Egito e o Brasil tiveram um papel fundamental no meu trabalho como locutora no departamento brasileiro da Rádio Cairo, assim também na tradução de obras literárias brasileiras.

Viver entre duas culturas através das cartas, das mensagens e das entrevistas com os diplomatas no Cairo e com os meus queridos ouvintes à distância, me ensinou a olhar o mundo a partir de diferentes perspectivas, e isso naturalmente se reflete nos temas que escolhi abordar nos meus programas na Rádio Cairo.

Por isso, deixo aqui o meu sincero agradecimento ao GLIP por essa distinção tão significativa, que guardarei com muito respeito e carinho.

8.Embora existam grandes desafios na tradução literária, nomes universais da nossa literatura atuam como pontes culturais. No caso de Machado de Assis, cujas obras exigem uma sensibilidade quase cirúrgica por sua ironia extremamente sutil e profundidade psicológica, como você avalia a complexidade e a importância de recriar essa experiência literária para o público e o leitor árabe?

Amal: Machado de Assis é, sem dúvida, uma das maiores referências da literatura em língua portuguesa, e o contato com a sua obra foi fundamental na minha formação como profissional da linguagem. Embora eu não tenha traduzido diretamente suas obras, sempre acompanhei com muito interesse o desafio que ele representa para qualquer tradutor. Sua escrita é marcada por uma ironia extremamente sutil e por uma profundidade psicológica que exige uma leitura atenta e sensível. Isso nos mostra que a tradução literária vai muito além das palavras — envolve captar nuances, intenções e até silêncios do texto. Como professora e profissional que atua entre o árabe e o português, vejo em Machado um exemplo claro de como a literatura pode ser, ao mesmo tempo, profundamente local e universal. Ele nos ensina que traduzir não é apenas transferir conteúdo, mas recriar uma experiência para outro público, respeitando a complexidade da obra original.


9.Com base na sua vasta vivência entre as duas nações, o que você acredita que os brasileiros deveriam conhecer sobre o Egito que raramente é divulgado pela grande mídia? E, do outro lado, o que os egípcios ainda precisam descobrir sobre a profundidade e a diversidade do povo brasileiro para além dos estereótipos?


Amal: Essa é uma ótima pergunta. Acredito que, no caso do Egito, o que muitas vezes não chega ao público brasileiro é a riqueza da sua vida cultural contemporânea. Existe uma tendência de associar o país apenas à sua história milenar, aos monumentos e à antiguidade, o que é compreensível, mas acaba deixando em segundo plano uma sociedade dinâmica, com produção intelectual, artística e acadêmica muito ativa. O Egito de hoje é plural, com debates, criatividade e transformações constantes que merecem ser mais conhecidos. Por outro lado, em relação ao Brasil, ainda há muitos estereótipos que reduzem a sua imagem a elementos como o futebol, o carnaval ou aspectos superficiais da cultura. O que muitas vezes não é plenamente compreendido é a profundidade humana e cultural do povo brasileiro — sua diversidade regional, sua capacidade de adaptação, sua riqueza literária e sua forma muito particular de construir relações humanas. A minha experiência entre os dois países me mostrou que, em ambos os casos, há muito mais pontos de encontro do que se imagina. São sociedades calorosas, com forte valorização das relações pessoais, da cultura e da expressão. Por isso, acredito que o intercâmbio cultural tem justamente esse papel: ir além das imagens simplificadas e revelar a complexidade e a riqueza que existem em cada realidade.


10.Como diretora do Departamento Brasileiro da Rádio Cairo, você sempre manteve a causa palestina como uma pauta prioritária em suas transmissões. Na sua visão, qual foi a importância de utilizar o rádio para informar o mundo lusófono sobre a realidade em Gaza e no Oriente Médio? Além disso, quais foram os maiores desafios que enfrentou ao longo da carreira para manter esse compromisso com a verdade e com a difusão cultural?


Amal: Ao longo da minha atuação no Departamento Brasileiro da Rádio Cairo, sempre entendi o rádio como uma ferramenta de responsabilidade ética e compromisso com a verdade. Tratar da realidade em Gaza e no Oriente Médio não era apenas uma escolha editorial, mas uma necessidade diante da forma muitas vezes limitada ou distorcida com que esses temas chegam ao público internacional. Levar essas questões ao mundo lusófono significava oferecer informação com contexto, profundidade e humanidade. Na Rádio Cairo, temos vários analistas políticos e especialistas que escrevem comentários e análises políticas sobre tudo o que acontece no Oriente Médio, sobretudo sobre a questão palestina, além de um programa que narra a história de Jerusalém. Vale a pena mencionar que o departamento brasileiro teve uma grande oportunidade de apoiar a causa palestina através da transmissão das vozes palestinas residentes no Brasil, como: Dr. Ibrahim Alzeben (Ex-Embaixador do Estado da Palestina no Brasil), Sr. Ali El-Khatib (presidente do Instituto Jerusalém do Brasil), Sr. Ualid Rabah (o Presidente da FEPAL - Federação Palestina), Dra. Amyra El Khalili (professora e editora das redes Movimento Mulheres pela Paz! e Aliança RECOs – Redes de Cooperação Comunitária Sem Fronteiras), Emir Murad (secretário-geral da COPLAC - Confederação Árabe Palestina da América Latina e Caribe), Rita de Cássia Halti (a representante palestina no CONSCRE - Conselho Estadual Parlamentar de Comunidades de Raízes e Culturas Estrangeiras, da ALESP – Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo), Sr. Gabriel Sayegh (o presidente do CONSCRE), e o Infectologista Descendente de palestino Jamal Suleiman.


11.No Egito, a fé e a cultura unem cristãos e muçulmanos em um tecido social único. Como essa integração desmente os preconceitos de segregação religiosa que muitas vezes chegam ao Brasil?


Amal: A convivência entre cristãos e muçulmanos no Egito é parte de uma realidade histórica e social profundamente enraizada. Trata-se de um tecido social construído ao longo de séculos, no qual a fé, embora vivida de maneiras distintas, faz parte de uma experiência coletiva compartilhada. Essa convivência cotidiana — nas famílias, nas escolas, no trabalho e nas relações de vizinhança — muitas vezes não aparece nas narrativas que circulam fora da região. O que chega ao público internacional, inclusive no Brasil, tende a destacar conflitos e exceções, o que pode criar uma percepção incompleta ou distorcida. A minha experiência mostra que há um forte senso de pertencimento nacional que atravessa as diferenças religiosas. E é justamente essa vivência concreta que ajuda a desmentir estereótipos e a mostrar que a diversidade, vivida com respeito, pode ser um elemento de coesão, e não de separação.


12.Para encerrarmos, como você avalia o mercado literário atual entre Brasil e Egito? Com o fortalecimento de feiras internacionais e eventos culturais, quais as chances reais de um escritor brasileiro entrar nesse intercâmbio hoje e que conselho você daria para que suas obras alcancem o público árabe respeitando a essência da nossa literatura?

Amal: O mercado literário entre Brasil e Egito — e, de forma mais ampla, entre o Brasil e o mundo árabe — vive hoje um momento mais aberto e promissor do que em décadas anteriores. O crescimento de feiras internacionais, residências literárias e projetos de tradução tem criado pontes reais que antes eram muito mais limitadas. Ao mesmo tempo, ainda existe um caminho importante a ser percorrido. A circulação de obras depende não apenas da qualidade literária, mas também de investimento em tradução, de interesse editorial e de mediadores culturais capazes de construir essas conexões. A literatura brasileira, por sua riqueza e diversidade, tem um enorme potencial de diálogo com o leitor árabe, mas ainda precisa de mais presença estruturada nesse espaço. Hoje, as chances de um escritor brasileiro entrar nesse intercâmbio são concretas, especialmente quando há abertura para parcerias internacionais e atenção ao trabalho de tradução como parte essencial do processo, e não como etapa secundária. A literatura não atravessa fronteiras sozinha — ela precisa de pontes bem construídas. Quanto ao conselho para que essas obras alcancem o público árabe sem perder sua essência, eu diria que o ponto central é confiar na força da própria literatura. Não se trata de adaptar para “facilitar”, mas de traduzir com sensibilidade, preservando ritmo, imagens, vozes e identidade do texto original. O bom tradutor não suaviza a obra — ele a torna compreensível sem empobrecê-la. Acredito que o verdadeiro intercâmbio acontece quando há respeito mútuo: o autor preserva sua autenticidade e o tradutor atua como mediador atento, capaz de fazer essa literatura respirar em outra língua sem perder sua alma. Antes de finalizar, queria parabenizar a Rádio Egípcia, que comemora o nonagésimo segundo aniversário em 31 de maio de 2026.

Muito obrigada.


quarta-feira, maio 06, 2026

Entrevista com a acadêmica Teresa Nogueira por Anthony Rasib



 ENTREVISTA EXCLUSIVA COM A ESCRITORA TERESA NOGUEIRA, MEMBRO TITULAR DO GLIP


Organização: Grêmio Literário Internacional Poesiarte (GLIP)


Entrevistador: Anthony Rasib, Secretário Executivo do GLIP

1. Como você, sendo Membro Titular do GLIP, define a missão essencial do Grêmio no cenário literário atual, e qual é o maior diferencial que a instituição traz para novos poetas e escritores?

Teresa Nogueira: Eu creio que a missão essencial de um grêmio literário seja fomentar novos escritores e dar chance a talentos que vivem escondidos de se mostrarem. Sabemos que não é fácil para quem escreve entrar no mundo literário; vejo como um grupo fechado em que poucos sobrevivem, até porque é um meio caro. Creio que o diferencial de um grêmio seja o de dar visão e vez a quem tem potencial, mas não sabe como chegar lá. Eu acredito que sem emoção não há poesia; penso que palavra e emoção andam juntas. Eu digo que quem escreve, escreve para o outro, e isso precisa tocar em sua emoção. Meu coração e mente são uma confusão só. Às vezes quero falar aquilo de que o coração está cheio, mas a mente pondera e diz: "vai devagar"... e aí acende a luz da razão e o texto flui leve (risos). Gosto de escrever algo que deixe sempre uma mensagem, uma reflexão. Às vezes deixo o coração e a mente fluírem juntos... aí é lágrima na certa.


2. Toda trajetória literária costuma ter um despertar. No seu caso, houve a influência de algum familiar, professor ou conhecido que a incentivou a dar os primeiros passos na escrita? Como essas figuras foram decisivas para que você se tornasse a escritora que é hoje?

Teresa Nogueira: Eu venho de uma família pobre e de pouco estudo. Meus pais nem tinham o primário completo, mas sabiam ler. Sempre via meu pai lendo jornal; acho que livro nunca vi. Minha mãe gostava de revistas e fotonovelas. Quando aprendi a ler, pedia os livros da escola emprestados para eles lerem. No 4º ano primário, ganhei da minha professora um livro lindo que contava a história de um peixinho... eu, que já amava, virei fã. Meu pai um dia chegou em casa todo contente e disse que tinha comprado um livro para mim. Quando abri, o livro era preto, muito grosso e não tinha leitura, só palavras: era um dicionário. O sonho dele era me dar uma Enciclopédia Barsa, mas era muito caro; então ele apareceu com outra que me ajudou muito nos estudos. Meu tio, irmão da minha mãe (hoje falecido), foi outro grande incentivador. Ele era caseiro em uma casa de turistas em Cabo Frio e me mostrava a biblioteca deles. Fiquei apaixonada por José Lins do Rego (Menino de Engenho, Bangüê), por O Morro dos Ventos Uivantes e Éramos Seis. No Ginásio, as professoras de Português eram excelentes e eu amava as aulas de Redação. Fiz meu discurso de formatura, fui aplaudida e ali comecei a escrever em diários e cadernos de versos.


3. Olhando para a sua própria infância em Itaperuna, quais são as suas memórias mais remotas com os livros? Houve algum momento específico na sua meninice em que você percebeu que a palavra escrita seria o seu caminho de vida?

Teresa Nogueira: Na minha infância não tive muito contato com livros em casa, minha família não tinha recursos. Mas eu me lembro de quando entrei para a escola, aos três anos de idade. No primeiro dia de aula, meu pai mandou eu escrever meu nome todo... como eu não soube, ele me bateu. E eu, aos três anos, disse para mim mesma que ninguém nunca ia me bater e nem me humilhar por não saber ler e nem escrever. Ao final deste mesmo ano, eu recebi meu primeiro livro e fui aprovada para uma classe acima da minha. Foi ali que percebi que a escrita seria minha força.

4. Como a menina Teresa, que cresceu no interior do Rio de Janeiro, enxergava o mundo ao seu redor, e de que maneira essa pureza do olhar infantil ainda sobrevive hoje em sua escrita e em sua atuação como professora?

Teresa Nogueira: Minha infância pode não ter tido muitos livros, mas sempre teve muita história oral, muita música... Os livros eram só os escolares e os extraclasse que éramos obrigados a ler; meus colegas odiavam e eu amava. Eu sempre tive uma criança interior que me acompanha até hoje. Comecei a dar aulas aos treze anos e, por gostar de ler e escrever, sempre tive bons alunos leitores. Sobre o meu relacionamento com as palavras, elas só vão fluindo e às vezes eu nem sei como estou escrevendo... vou juntando uma frase com a outra e, quando vejo, o texto está pronto. As palavras fazem cócegas na minha mente e, enquanto não ganham vida, não sossegam. Não gosto de usar palavras difíceis ou uma retórica forte; quanto mais simples o texto, mais ele toca e convence quem lê. Creio que não sou eu quem escolhe as palavras, mas sou escolhida por elas. Elas me ajudam a exorcizar os fantasmas da minha mente.

5. Seus livros, A Menina e o Passarinho e A Menina e o Mar, trazem uma proposta ilustrada e interativa. Como foi o processo de resgatar o lúdico para essas obras e qual o significado emocional de ver sua filha, Sylvia, dar cor e forma ao universo que você idealizou?

Teresa Nogueira: Foi uma coisa bem louca. Eu estava sentada tomando café na pandemia, ouvindo a correria da criançada fora da escola, e um passarinho na árvore do meu quintal cantava alto. Me imaginei numa conversa com ele e saiu a poesia. Mostrei para minha filha, Sylvia Braz, que é autodidata e formada em Publicidade; ela ilustrou e o editor da Focus comprou a ideia na hora. Vendi 100 exemplares em dois dias! Eu sempre amei as ilustrações da minha filha, ela nunca teve aula de desenho e sempre fez todo tipo de arte. É um orgulho. Quando falo que a ilustração é dela, só ganho parabéns. Escrever é uma forma de me manter viva. Eu digo que as palavras me seduzem e me conquistam de um jeito que, enquanto não as faço ter vida, elas não me deixam sossegada.

6. Na sua opinião, qual é o valor e a importância de projetos de comunicação como esta entrevista para o GLIP? De que forma você acredita que este tipo de divulgação beneficia e incentiva outros Membros Titulares e novos talentos do Grêmio?

Teresa Nogueira: Um valor imenso. Você, através de suas perguntas e questionamentos, me fez pensar em coisas sobre mim e sobre a arte de escrever em que eu nunca tinha pensado a respeito. Creio que ajuda a despertar mais ainda o dom da escrita e da leitura. Nem todo bom leitor escreve e nem todo bom escritor lê; parece contraditório, mas é verdade. Creio que escrever é um dom. Outros membros, lendo a nossa entrevista, podem se sentir levados a pensar sobre tudo o que foi dito e também se autoavaliarem. Para mim, sua entrevista está sendo uma autoavaliação.

7. Com sua vasta experiência no Ensino Fundamental, como você acredita que a literatura pode transformar a infância de uma criança? O que mais a encanta no contato direto entre o pequeno leitor e a poesia?

Teresa Nogueira: O que me encanta são os olhinhos brilhando quando pegam um livro na mão. Quando você faz a roda de leitura, as crianças se encantam, querem mais... Meus alunos tinham amor e respeito pelos livros porque me viam cuidar dos meus. Na minha sala de aula, havia o cantinho da leitura; quem terminasse a tarefa podia ir se sentar lá e escolher um livro. Eles amavam! Muitos pediam para levar para a mãe ou para a avó lerem. Era uma troca muito linda. Às vezes eu criava um texto na hora e eles perguntavam: "tia, de onde você tira isso?". Eu apontava para a cabeça e dizia: "daqui ó...". Eles riam e falavam: "nossa tia, cabe tudo isso aí?". E assim eles também pegavam o gosto pela escrita.

8. Você participou de dezenas de antologias importantes, como o Tributo a Pelé e os 500 anos de Camões. Como é para você, que dedicou a vida a ensinar literatura, ver seu nome hoje ao lado de grandes nomes da nossa língua em obras que atravessam fronteiras?

Teresa Nogueira: Menino... estas Antologias me pegaram de surpresa. O responsável por elas leu um texto meu numa Academia virtual de que fazíamos parte, gostou e me convidou. Eu fiquei emocionada. Sempre amei os grandes autores (apesar de não saber textos de cor, apenas um ou outro do Drummond e da Cecília). Sempre sonhei um dia, mesmo sem escrever nada até então, em entrar para a ABL... Então, ver meus textos aprovados para participações em homenagens tão importantes me dá muita alegria. Engraçado que, às vezes, a gente ensina a Literatura de uma forma tão pedagógica e limitada que não percebe o impacto que ela pode causar na vida dos alunos.

9. Tendo homenageado ícones como Carlos Drummond de Andrade, como você busca equilibrar a tradição dos grandes clássicos com a "escrevivência" — essa escrita que nasce da experiência de vida — em suas próprias poesias?

Teresa Nogueira: Minha forma de escrever é livre. Rabisco umas "bobagens" que insistem em arranhar meus pensamentos. Não escrevo baseada em nenhum autor. Gosto de escrever sobre o que sinto, o que vejo. Quase sempre escrevo na primeira pessoa (não que seja necessariamente sobre mim), mas acho que nada seja parecido com os autores citados. Talvez eu tenha um pouco do sofrimento dos clássicos (Castro Alves, José de Alencar), porque gosto de escrever coisas fortes, às vezes uma dor vivida. Mas me identifico mais com Rubem Alves, Drummond e Cecília Meireles. Gosto da "Escrevivência da Experiência" e escrevo dentro desta linha: textos que levem uma mensagem e toquem o leitor.

10. Qual é o papel do Estado ou do setor público na promoção e no fomento a uma educação que priorize o acesso ao livro desde a primeira infância, garantindo que as futuras gerações tenham o direito de sonhar através da arte e da literatura?

Teresa Nogueira: Creio que os municípios e os governos estadual e federal não estão muito preocupados em tornar os alunos leitores, porque quem lê sabe, entende e cobra. Deveria ser deles a responsabilidade de doação de livros e formação de leitores, mas não vejo o poder público preocupado com isso. Aqui na minha cidade, caminhamos com nossas próprias pernas; às vezes sai um edital, mas é tanta burocracia que a gente desiste. Já vi chegarem às escolas muitos livros bons vindos do FNDE, mas alguns diretores os trancavam a sete chaves e ninguém tinha acesso.

11. Como professora de Língua Portuguesa e Literatura, qual você considera ter sido a sua melhor e mais marcante experiência em sala de aula? Além disso, quais foram os maiores desafios que enfrentou ao longo da carreira?

Teresa Nogueira: Minha experiência boa é que, como sempre fui boa leitora, tive bons alunos leitores. Os desafios no Magistério são sempre as turmas grandes, com 35 alunos, o que dificulta um trabalho melhor, e a dupla jornada. Mas o bom professor não espera pela ajuda governamental; quando ele quer, faz acontecer. Lembro-me de uma experiência marcante na faculdade: o professor pediu para lermos O Crime do Padre Amaro. A patroa da minha mãe disse que eu estava lendo um livro proibido e minha mãe o escondeu! Foi uma luta para eu terminar o trabalho. Até hoje não me lembro qual foi o crime do padre (acho que fiquei com medo!). Gosto de leituras que tocam a emoção: Rubem Alves, Fernão Capelo Gaivota, Terra dos Homens, A Moça Tecelã.

12. Para encerrarmos, qual conselho você daria para o escritor que deseja publicar sua obra hoje? O que ele deve levar em conta ao contratar uma editora para livros físicos ou ebooks para garantir que seu trabalho seja respeitado?

Teresa Nogueira: Procure saber da idoneidade de quem vai publicar. Eu já fui vítima de golpes (risos); acreditei em promessas de uma editora, perdi dinheiro e o livro nunca saiu. Já se vão três anos e nada. Então, colegas, não entreguem sua obra em quaisquer mãos. Pesquise, peça informações, tente conhecer alguém que já trabalhou com a editora. Quanto aos ebooks, eu não sei dizer, até porque não gosto; meu negócio é o livro físico. Valorize seu texto e sua trajetória.

Quem é Teresa Nogueira?

Teresa Nogueira Escritora, mãe e poetisa. Acadêmica de várias Academias de Letras. Locutora na Rádio Ave Maria, onde faz orações e leva a fé para os corações, além de recitar seus belos poemas.

Programa na Rádio

: https://www.youtube.com/live/2igWKWrKnfQ

Canal Oficial no YouTube: https://youtube.com/@radioavemariafm87.9

sexta-feira, março 20, 2026

Entrevista com Ashraf Al Bardisy por Anthony Rasib

 



ENTREVISTA EXCLUSIVA


Organização: Grêmio Literário Internacional Poesiarte (GLIP)


Entrevistador e Tradutor: Anthony Rasib, Diretor de Marketing e Intercâmbio Internacional do GLIP


Convidado: Ashraf Al Bardisy País: Egito


Perfil: Criador de Conteúdo, Influenciador Cultural, Empresário com uma Agência de serviços turísticos no Egito.


É com imensa honra que o Grêmio Literário Internacional Poesiarte (GLIP) recebe hoje Ashraf Al Bardisy, uma das vozes mais autênticas na divulgação da cultura egípcia para o mundo. Empresário e influenciador, Ashraf rompe fronteiras digitais para levar a essência de sua terra natal ao público global.


1. Anthony Rasib: No cenário atual da globalização, qual é o papel de criadores de conteúdo e guias profissionais na preservação da imagem de uma nação? Como você enxerga a responsabilidade de ser a "voz" de um país com uma história tão vasta e significativa para a humanidade?


Ashraf Al Bardisy: Na condição de criador de conteúdo e guia, atuo como um embaixador da vasta história do Egito. Meu papel é estabelecer uma ponte entre nossa herança milenar e o mundo contemporâneo. Ao mesmo tempo em que exalto a beleza de nossos sítios icônicos, mantenho-me justo, realista e íntegro. A verdadeira credibilidade é construída ao apresentar o que nossa nação tem de melhor, sem abdicar de uma perspectiva autêntica. Dedico-me também a revelar as inúmeras preciosidades ocultas que, atualmente, são negligenciadas. A honestidade garante que os visitantes confiem em minha voz, respeitem nossa cultura e descobram nossa total profundidade.


2. Anthony Rasib: Por que a comunicação direta e o intercâmbio cultural digital são fundamentais para que a verdadeira história e a cultura egípcia cheguem ao público mundial com autenticidade, sem os filtros de narrativas externas ou estereótipos?


Ashraf Al Bardisy: Historicamente, a imagem do Egito foi moldada por filtros externos e estereótipos que limitam nossa identidade. Ao dialogar diretamente com um público global, ofereço uma narrativa autêntica e de primeira mão. Tenho a liberdade de evidenciar preciosidades ocultas, como a Pirâmide Vermelha, a Bayt Al-Suhaymi e a Cidade dos Mortos, que a mídia convencional frequentemente negligencia. Esta ponte digital garante que o mundo contemple a profundidade total de nossa herança através de um olhar local, permitindo que os visitantes respeitem nossa cultura viva e descobram a real magnitude histórica de nossa nação.


3. Anthony Rasib: Como um egípcio que comunica sua cultura para o exterior, como você percebe o fascínio global pelo Egito? Houve algum momento ou feedback específico em que você sentiu que seu conteúdo estava quebrando barreiras geográficas e unindo pessoas de diferentes continentes?


Ashraf Al Bardisy: Percebo o fascínio global pelo Egito como um elo universal; pessoas de todas as partes do mundo reconhecem nossa história como um legado compartilhado da humanidade. Em meu trabalho, observo que o conteúdo referente ao Egito Antigo gera o maior índice de engajamento, superando o alcance global das narrativas islâmicas, coptas ou da história moderna. Um momento emblemático em que senti o rompimento das barreiras geográficas foi ao compartilhar conteúdos sobre Tutancâmon. Este tema unificou pessoas de diferentes continentes, provando que a Egiptologia é, de fato, uma linguagem universal. Ao difundir sua trajetória, testemunhei como nossa herança pode verdadeiramente servir de ponte entre culturas e aproximar o mundo sob uma mesma identidade histórica.


4. Anthony Rasib: Você já guiou turistas brasileiros? Se sim, como foi essa experiência? Existe algo no jeito brasileiro de conhecer o Egito que te chame a atenção ou que facilite essa troca cultural e humana?


Ashraf Al Bardisy: Curiosamente, ainda não tive a oportunidade de guiar brasileiros em solo egípcio, mas tive encontros memoráveis com eles em outras partes do mundo, como durante a Copa do Mundo na Alemanha, e também em destinos como Tailândia e Indonésia. Notei que o público brasileiro possui um espírito explorador notável.


5. Anthony Rasib: Como especialista, você conhece algum local, templo ou experiência que poucos agentes turísticos divulgam em pacotes convencionais, mas que proporciona uma visita inesquecível ao turista? Qual seria esse "tesouro escondido" que você recomendaria para quem busca o Egito autêntico?


Ashraf Al Bardisy: Recomendo enfaticamente o Templo de Dendera. Embora frequentemente excluído dos pacotes convencionais, é um dos sítios mais bem preservados do Egito. Seus tetos ainda conservam cores vibrantes e originais, além de raros zodíacos astronômicos que trazem a história à vida. Os visitantes podem explorar criptas estreitas ou subir ao terraço onde ocorriam rituais ancestrais, desfrutando de uma atmosfera espiritual e serena, longe das multidões. Para quem busca o Egito autêntico, Dendera oferece uma ponte singular entre a ciência antiga e a arte, proporcionando uma experiência inesquecível que parece intocada pelo comercialismo moderno.

Para uma jornada verdadeiramente memorável, recomendo explorar os Desertos Branco e Preto; suas formações de calcário que lembram paisagens lunares e suas colinas vulcânicas oferecem uma experiência de acampamento surreal sob as estrelas. O Oásis de Siwa é outra joia essencial, famoso por seus lagos de sal e pela cultura berbere única. Já no Mar Vermelho, enquanto El Gouna oferece um estilo de vida moderno e sofisticado, Dahab proporciona uma vibração boêmia e relaxante, e Marsa Alam permanece um paraíso intocado para mergulhadores. Esses locais revelam o "Egito Real": uma fusão de tranquilidade ancestral, beleza natural bruta e uma vida moderna vibrante que as excursões convencionais muitas vezes deixam de notar. Para finalizar, também indico o Cruzeiro no Nilo entre Luxor e Aswan.


6. Anthony Rasib: Como foi crescer cercado por uma história que o mundo inteiro estuda nos livros? Conte-nos um pouco sobre a sua cidade natal e a sua infância: qual é a sua lembrança mais antiga de olhar para um monumento e perceber que aquilo não era apenas "pedra", mas parte viva de quem você é?


Ashraf Al Bardisy: Eu cresci na Rua Al Ahram (a rua das pirâmides), e as Grandes Pirâmides eram a minha paisagem cotidiana. Embora minha formação acadêmica tenha sido em Contabilidade, minha trajetória como Comissário de Bordo Chefe (Flight Purser) na Kuwait Airways permitiu-me contrastar diversas culturas globais com a minha própria. Essa perspectiva internacional inspirou-me a retornar e fundar minha própria agência de serviços turísticos em El Gouna. Ao estabelecer uma ponte entre minhas raízes locais e minha experiência global, hoje compartilho a história viva do Egito através das minhas lentes, garantindo que nossas narrativas alcancem o mundo com autenticidade e um rigoroso toque profissional.


7. Anthony Rasib: Qual o maior diferencial que você busca trazer para que o público mundial entenda a complexidade e a beleza da vida árabe moderna, transformando sua identidade local em uma narrativa que faça sentido para qualquer pessoa no mundo?


Ashraf Al Bardisy: Meu principal diferencial é demonstrar que o Egito é uma sociedade viva, e não apenas um museu de antiguidades. Eu estabeleço uma ponte entre nossas raízes históricas e a vida árabe moderna ao focar em conexões humanas universais. Seja ao destacar o esmero de um artesão local ou a hospitalidade encontrada em El Gouna, apresento valores como a generosidade e a resiliência, que ecoam globalmente. Ao compartilhar nossa música contemporânea, nossa gastronomia e nossas tradições ao lado de nossos monumentos, supero estereótipos limitantes. Transformo minha identidade local em uma narrativa que permite ao mundo enxergar o Egito como uma nação vibrante, complexa e profundamente conectada com a realidade de qualquer pessoa.


8. Anthony Rasib: Qual é a missão essencial que te move ao mostrar o "Egito real"? O que você mais gosta de revelar sobre o cotidiano do seu povo que as câmeras de cinema e os grandes documentários de história raramente mostram?


Ashraf Al Bardisy: Minha missão essencial é reivindicar nossa narrativa, demonstrando que o Egito é uma nação viva, e não apenas um museu. Enquanto os documentários focam em pedras silenciosas, sinto prazer em revelar o calor e o humor do nosso cotidiano. Amo mostrar a hospitalidade "oculta" — o chá compartilhado com um estranho, a energia pulsante de um mercado local ou o espírito moderno e criativo em lugares como El Gouna. Esses momentos humanos, que as câmeras de cinema frequentemente ignoram, provam que nosso maior tesouro não é apenas o nosso passado ancestral, mas a alma resiliente e acolhedora do povo egípcio de hoje.


9. Anthony Rasib: Como você percebe o movimento atual da juventude egípcia em relação à manutenção de suas raízes e tradições?


Ashraf Al Bardisy: Percebo um poderoso "Despertar Digital" entre a juventude egípcia. Hoje, os jovens não são apenas consumidores passivos da história; eles são seus protetores ativos. Estamos testemunhando uma mudança massiva, onde a Geração Z e a Geração Y utilizam plataformas como TikTok e Instagram para reivindicar nossa narrativa — distanciando-se das "pedras silenciosas" dos antigos documentários em direção a uma celebração vibrante e viva de nossas raízes.


Ashraf Al Bardisy agradece o espaço ao público do Brasil e países da lusofonia, via Grêmio Literário Internacional Poesiarte (GLIP).

Seus trabalhos estão acessíveis neste link:

👉 TikTok - @red.sea.guide2

Ashraf também é muito ativo no Facebook, participando de grupos da cultura libanesa e egípcia.