quarta-feira, maio 27, 2026

Entrevista com a acadêmica honorária Amal Al-Desouky por Anthony Rasib


 Entrevista exclusiva com Amal Al-Desouky por Anthony Rasib


Organização: Grêmio Literário Internacional Poesiarte (GLIP)

Convidada: Amal Mohamed Al Desouky (Acadêmica Honorária do GLIP)

Entrevistador: Anthony Rasib, Secretário Executivo do GLIP


1.Durante sua ilustre trajetória na Rádio Cairo, você foi a voz definitiva que rompeu o silêncio entre o Egito e o mundo lusófono ao traduzir o Alcorão Sagrado e os sermões de sexta-feira. Como é, hoje, olhar para trás e dimensionar o peso literário e espiritual de ter sido, por mais de trinta anos, o único canal de interpretação da fé para milhões de ouvintes em nove países? Qual era o sentimento ao saber que sua voz era o fio condutor que unia o sagrado ao cotidiano de pessoas em terras tão distantes?

Amal: Ao olhar para trás, sinto uma profunda gratidão e também um grande senso de responsabilidade por tudo o que vivi nesse período. Durante mais de trinta anos, tive a honra de contribuir para aproximar o Egito do mundo lusófono por meio do meu trabalho na Rádio Cairo em português, Rádio Difusora da República Árabe do Egito.

Entre aqueles programas que eu apresentava, como você mencionou, a interpretação do Alcorão Sagrado e os sermões de sexta-feira, além de outros programas como Conversando com os ouvintes, A sua voz na Rádio Cairo, Egito maravilhoso, Egito na internet, Canções da semana, O mundo dos esportes, Egito Imortalizado... veredictos internacionais, etc., sempre encarei esse trabalho não apenas como uma função profissional, mas como uma missão de diálogo, compreensão e respeito entre culturas e crenças.

Saber que minha voz chegava a milhões de pessoas em diferentes países era algo que me emocionava e, ao mesmo tempo, me exigia muito cuidado. Eu tinha plena consciência de que cada palavra precisava ser fiel ao significado original e, ao mesmo tempo, acessível ao público. Era como construir uma ponte entre o sagrado e o cotidiano, entre línguas e realidades distintas.

Vale a pena mencionar que o esclarecimento da mensagem moderada do Islã e a correção de concepções equivocadas sobre a religião constituem um dos principais e importantes objetivos das Emissoras Internacionais da República Árabe do Egito há mais de setenta anos.

2. Toda trajetória de sucesso costuma ter um despertar, e a sua carreira é uma prova viva para o público no Brasil de que a mulher no Islã não apenas ocupa espaços, mas lidera frentes intelectuais de prestígio. No seu caso, como foi utilizar sua voz para enfrentar e desmentir preconceitos em solo brasileiro, mostrando que o estudo e a liderança feminina são pilares da sua fé e cultura? Houve alguma influência familiar ou mentoria que a encorajou a seguir esse caminho de sucesso, desde a sua graduação em línguas até se tornar uma referência internacional na comunicação?

Amal: Acredito que, mais do que enfrentar preconceitos diretamente, o meu trabalho sempre foi no sentido de construir pontes por meio do conhecimento e do diálogo. Ao longo da minha trajetória, especialmente na comunicação com o público brasileiro, procurei mostrar, na prática, que o Islã valoriza profundamente o conhecimento, a educação e a participação ativa das mulheres na sociedade.

Usar a minha voz nesse contexto foi, acima de tudo, uma forma de aproximar realidades que muitas vezes são vistas de maneira simplificada ou estereotipada. Em vez de responder apenas com argumentos, eu buscava demonstrar, através do conteúdo que produzia, a riqueza cultural e intelectual da minha formação e da minha fé.

Nós, na Rádio Cairo, temos um programa semanal intitulado “As Mulheres Egípcias” — programa que vai ao ar em diferentes línguas, apresentando as realizações e conquistas da mulher egípcia ao longo das décadas.

Sem dúvida, tive influências importantes nesse caminho. Minha formação acadêmica em línguas foi fundamental, mas também contei com o apoio da minha família, que sempre valorizou o estudo e a dedicação, além de mentores no meu trabalho que acreditaram no meu potencial e me incentivaram a seguir na área da comunicação internacional.

3. Olhando para a sua própria juventude no Cairo, quais são as suas memórias mais remotas com o rádio e os livros? Além dessas lembranças, como foi para você o sentimento de enfrentar o desafio de uma cultura nova ao chegar no Brasil? Quais foram as maiores dificuldades de adaptação que encontrou e, por outro lado, quais similaridades surpreendentes você notou entre o povo brasileiro e o egípcio que ajudaram a construir essa ponte em sua vida?

Amal: Ao olhar para a minha juventude no Cairo, as minhas memórias com o rádio e os livros são profundamente afetivas. O rádio sempre esteve presente no cotidiano, e continua até hoje em dia, como uma janela para o mundo, trazendo vozes, histórias e diferentes culturas para dentro de casa. Já os livros foram, desde cedo, um espaço de descoberta e imaginação, onde comecei a desenvolver o meu interesse pelas línguas e pela comunicação.

No meu caso, a minha aproximação com o Brasil não aconteceu por meio de uma vivência direta no país, mas através do meu trabalho e do contato constante com a língua e a cultura brasileira. Ao longo dos anos, tive a oportunidade de dialogar com diplomatas, visitantes, ouvintes brasileiros e também de traduzir romances brasileiros, o que me permitiu construir uma compreensão muito próxima da realidade cultural do Brasil.

Naturalmente, esse processo também trouxe desafios, especialmente no que diz respeito às nuances da língua e às particularidades culturais que só se revelam no contato contínuo. Foi um aprendizado construído com escuta, atenção e troca.

Por outro lado, algo que sempre me chamou a atenção foram as semelhanças entre os dois povos. Tanto o brasileiro quanto o egípcio valorizam muito as relações humanas, a hospitalidade, a família e o convívio social. Essa identificação facilitou muito essa aproximação cultural, mesmo à distância.

Acredito que essa experiência mostra que o intercâmbio cultural não depende apenas da presença física, mas também da abertura para o diálogo e da disposição para compreender o outro.

4.Suas traduções levaram clássicos e autores contemporâneos do Brasil para o mundo árabe. Como foi transpor a crítica social e o lúdico dessas obras para outro idioma e qual a emoção de ver nomes como Jorge Amado e Raphael Montes ganhando vida em árabe por suas mãos?

Amal: Levar obras brasileiras para o árabe é, antes de tudo, uma grande responsabilidade cultural e humana. Cada texto carrega não apenas palavras, mas também emoções, referências sociais, humor, ironia e formas muito próprias de ver o mundo. O maior desafio é preservar a alma da obra, fazendo com que o leitor árabe sinta o mesmo impacto e a mesma proximidade que o leitor brasileiro.

No caso da crítica social, procuro transmitir o contexto e a intensidade das questões abordadas, respecting as diferenças culturais entre os dois mundos. Já o lado lúdico e criativo exige muita sensibilidade linguística, porque certas expressões ou jogos de linguagem precisam ser recriados para manter o efeito original.

Ver autores contemporâneos como Raphael Montes chegando ao público árabe através das minhas traduções e de outras mais, é uma emoção muito especial. É como construir uma ponte entre culturas distantes e permitir que novas vozes brasileiras sejam descobertas, apreciadas e vividas em outra língua. Isso me dá a sensação de que a literatura realmente ultrapassa fronteiras e aproxima pessoas.

Raphael Montes é um dos autores contemporâneos mais importantes da literatura brasileira, conhecido pelos seus romances de suspense psicológico e narrativa envolvente. Suas obras conquistaram leitores em vários países, despertando grande interesse também no público árabe através das traduções.

5. Na sua opinião, qual é o valor e a importância de projetos de comunicação como esta entrevista para o GLIP? De que forma você acredita que este tipo de divulgação beneficia e incentiva outros Membros e novos talentos que buscam o intercâmbio cultural?

Amal: Boa pergunta. Acredito que projetos de comunicação como esta entrevista têm um valor muito significativo, especialmente no contexto do GLIP, porque ampliam vozes e tornam trajetórias mais visíveis e acessíveis. Muitas vezes, o trabalho realizado por membros e profissionais da área não chega ao público de forma estruturada, e iniciativas como essa ajudam a dar forma e reconhecimento a essas experiências.

Além disso, esse tipo de divulgação tem um papel importante na inspiração de novos talentos. Quando as pessoas têm acesso a histórias reais, com desafios, aprendizados e conquistas, elas conseguem se enxergar nesse caminho e perceber que o intercâmbio cultural é algo possível e enriquecedor.

Também vejo como uma oportunidade de fortalecer redes. Ao compartilhar experiências, criamos pontos de conexão entre diferentes culturas, gerações e áreas de atuação, o que é essencial para o crescimento coletivo.

No fim, acredito que o maior benefício está justamente nisso: transformar experiências individuais em referências que possam motivar, orientar e abrir portas para outros.

6.Com sua vasta experiência no ensino de português para egípcios e árabe para brasileiros, como você acredita que a literatura e o idioma podem transformar a vida de um estudante? O que mais a encanta no contato direto entre o aluno e a descoberta de uma nova cultura?

Amal: Acredito profundamente que a língua e a literatura têm um poder transformador na vida de qualquer estudante, porque vão muito além da comunicação. Aprender um novo idioma é, na verdade, aprender uma nova forma de pensar, de interpretar o mundo e de se relacionar com o outro. Já a literatura permite um mergulho mais profundo, oferecendo ao aluno acesso às emoções, valores e contextos culturais que moldam aquela sociedade.

Ao longo da minha experiência ensinando português para os árabes e a língua árabe para os brasileiros, percebi que esse processo transforma não apenas o conhecimento linguístico, mas também a forma como o aluno enxerga a si mesmo e o outro. Há um ganho evidente em empatia, abertura e curiosidade.

O que mais me encanta é justamente esse momento de descoberta — quando o aluno começa a perceber que consegue compreender, se expressar e, aos poucos, pertencer àquela nova realidade cultural. É um processo muito humano, de aproximação e de quebra de barreiras.

7.Você participou de momentos históricos na rádio e traduziu obras que atravessam fronteiras, mas também possui uma produção literária própria muito rica. Como é para você ver seu nome hoje como Acadêmica Honorária do GLIP e de que maneira suas vivências entre o Egito e o Brasil moldam a sua própria escrita e os temas que você escolhe eternizar em seus textos pessoais?

Amal: Ser reconhecida como Acadêmica Honorária do GLIP é, para mim, uma grande honra e tem um significado muito especial, por se tratar da única homenagem formal que recebi ao longo de toda a minha trajetória profissional na Rádio Cairo.

Depois de tantos anos dedicados à comunicação e ao intercâmbio cultural, receber esse reconhecimento me emociona profundamente, porque representa a valorização de um trabalho construído com dedicação, responsabilidade e compromisso com a aproximação entre culturas.

Minhas vivências entre o Egito e o Brasil tiveram um papel fundamental no meu trabalho como locutora no departamento brasileiro da Rádio Cairo, assim também na tradução de obras literárias brasileiras.

Viver entre duas culturas através das cartas, das mensagens e das entrevistas com os diplomatas no Cairo e com os meus queridos ouvintes à distância, me ensinou a olhar o mundo a partir de diferentes perspectivas, e isso naturalmente se reflete nos temas que escolhi abordar nos meus programas na Rádio Cairo.

Por isso, deixo aqui o meu sincero agradecimento ao GLIP por essa distinção tão significativa, que guardarei com muito respeito e carinho.

8.Embora existam grandes desafios na tradução literária, nomes universais da nossa literatura atuam como pontes culturais. No caso de Machado de Assis, cujas obras exigem uma sensibilidade quase cirúrgica por sua ironia extremamente sutil e profundidade psicológica, como você avalia a complexidade e a importância de recriar essa experiência literária para o público e o leitor árabe?

Amal: Machado de Assis é, sem dúvida, uma das maiores referências da literatura em língua portuguesa, e o contato com a sua obra foi fundamental na minha formação como profissional da linguagem. Embora eu não tenha traduzido diretamente suas obras, sempre acompanhei com muito interesse o desafio que ele representa para qualquer tradutor. Sua escrita é marcada por uma ironia extremamente sutil e por uma profundidade psicológica que exige uma leitura atenta e sensível. Isso nos mostra que a tradução literária vai muito além das palavras — envolve captar nuances, intenções e até silêncios do texto. Como professora e profissional que atua entre o árabe e o português, vejo em Machado um exemplo claro de como a literatura pode ser, ao mesmo tempo, profundamente local e universal. Ele nos ensina que traduzir não é apenas transferir conteúdo, mas recriar uma experiência para outro público, respeitando a complexidade da obra original.


9.Com base na sua vasta vivência entre as duas nações, o que você acredita que os brasileiros deveriam conhecer sobre o Egito que raramente é divulgado pela grande mídia? E, do outro lado, o que os egípcios ainda precisam descobrir sobre a profundidade e a diversidade do povo brasileiro para além dos estereótipos?


Amal: Essa é uma ótima pergunta. Acredito que, no caso do Egito, o que muitas vezes não chega ao público brasileiro é a riqueza da sua vida cultural contemporânea. Existe uma tendência de associar o país apenas à sua história milenar, aos monumentos e à antiguidade, o que é compreensível, mas acaba deixando em segundo plano uma sociedade dinâmica, com produção intelectual, artística e acadêmica muito ativa. O Egito de hoje é plural, com debates, criatividade e transformações constantes que merecem ser mais conhecidos. Por outro lado, em relação ao Brasil, ainda há muitos estereótipos que reduzem a sua imagem a elementos como o futebol, o carnaval ou aspectos superficiais da cultura. O que muitas vezes não é plenamente compreendido é a profundidade humana e cultural do povo brasileiro — sua diversidade regional, sua capacidade de adaptação, sua riqueza literária e sua forma muito particular de construir relações humanas. A minha experiência entre os dois países me mostrou que, em ambos os casos, há muito mais pontos de encontro do que se imagina. São sociedades calorosas, com forte valorização das relações pessoais, da cultura e da expressão. Por isso, acredito que o intercâmbio cultural tem justamente esse papel: ir além das imagens simplificadas e revelar a complexidade e a riqueza que existem em cada realidade.


10.Como diretora do Departamento Brasileiro da Rádio Cairo, você sempre manteve a causa palestina como uma pauta prioritária em suas transmissões. Na sua visão, qual foi a importância de utilizar o rádio para informar o mundo lusófono sobre a realidade em Gaza e no Oriente Médio? Além disso, quais foram os maiores desafios que enfrentou ao longo da carreira para manter esse compromisso com a verdade e com a difusão cultural?


Amal: Ao longo da minha atuação no Departamento Brasileiro da Rádio Cairo, sempre entendi o rádio como uma ferramenta de responsabilidade ética e compromisso com a verdade. Tratar da realidade em Gaza e no Oriente Médio não era apenas uma escolha editorial, mas uma necessidade diante da forma muitas vezes limitada ou distorcida com que esses temas chegam ao público internacional. Levar essas questões ao mundo lusófono significava oferecer informação com contexto, profundidade e humanidade. Na Rádio Cairo, temos vários analistas políticos e especialistas que escrevem comentários e análises políticas sobre tudo o que acontece no Oriente Médio, sobretudo sobre a questão palestina, além de um programa que narra a história de Jerusalém. Vale a pena mencionar que o departamento brasileiro teve uma grande oportunidade de apoiar a causa palestina através da transmissão das vozes palestinas residentes no Brasil, como: Dr. Ibrahim Alzeben (Ex-Embaixador do Estado da Palestina no Brasil), Sr. Ali El-Khatib (presidente do Instituto Jerusalém do Brasil), Sr. Ualid Rabah (o Presidente da FEPAL - Federação Palestina), Dra. Amyra El Khalili (professora e editora das redes Movimento Mulheres pela Paz! e Aliança RECOs – Redes de Cooperação Comunitária Sem Fronteiras), Emir Murad (secretário-geral da COPLAC - Confederação Árabe Palestina da América Latina e Caribe), Rita de Cássia Halti (a representante palestina no CONSCRE - Conselho Estadual Parlamentar de Comunidades de Raízes e Culturas Estrangeiras, da ALESP – Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo), Sr. Gabriel Sayegh (o presidente do CONSCRE), e o Infectologista Descendente de palestino Jamal Suleiman.


11.No Egito, a fé e a cultura unem cristãos e muçulmanos em um tecido social único. Como essa integração desmente os preconceitos de segregação religiosa que muitas vezes chegam ao Brasil?


Amal: A convivência entre cristãos e muçulmanos no Egito é parte de uma realidade histórica e social profundamente enraizada. Trata-se de um tecido social construído ao longo de séculos, no qual a fé, embora vivida de maneiras distintas, faz parte de uma experiência coletiva compartilhada. Essa convivência cotidiana — nas famílias, nas escolas, no trabalho e nas relações de vizinhança — muitas vezes não aparece nas narrativas que circulam fora da região. O que chega ao público internacional, inclusive no Brasil, tende a destacar conflitos e exceções, o que pode criar uma percepção incompleta ou distorcida. A minha experiência mostra que há um forte senso de pertencimento nacional que atravessa as diferenças religiosas. E é justamente essa vivência concreta que ajuda a desmentir estereótipos e a mostrar que a diversidade, vivida com respeito, pode ser um elemento de coesão, e não de separação.


12.Para encerrarmos, como você avalia o mercado literário atual entre Brasil e Egito? Com o fortalecimento de feiras internacionais e eventos culturais, quais as chances reais de um escritor brasileiro entrar nesse intercâmbio hoje e que conselho você daria para que suas obras alcancem o público árabe respeitando a essência da nossa literatura?

Amal: O mercado literário entre Brasil e Egito — e, de forma mais ampla, entre o Brasil e o mundo árabe — vive hoje um momento mais aberto e promissor do que em décadas anteriores. O crescimento de feiras internacionais, residências literárias e projetos de tradução tem criado pontes reais que antes eram muito mais limitadas. Ao mesmo tempo, ainda existe um caminho importante a ser percorrido. A circulação de obras depende não apenas da qualidade literária, mas também de investimento em tradução, de interesse editorial e de mediadores culturais capazes de construir essas conexões. A literatura brasileira, por sua riqueza e diversidade, tem um enorme potencial de diálogo com o leitor árabe, mas ainda precisa de mais presença estruturada nesse espaço. Hoje, as chances de um escritor brasileiro entrar nesse intercâmbio são concretas, especialmente quando há abertura para parcerias internacionais e atenção ao trabalho de tradução como parte essencial do processo, e não como etapa secundária. A literatura não atravessa fronteiras sozinha — ela precisa de pontes bem construídas. Quanto ao conselho para que essas obras alcancem o público árabe sem perder sua essência, eu diria que o ponto central é confiar na força da própria literatura. Não se trata de adaptar para “facilitar”, mas de traduzir com sensibilidade, preservando ritmo, imagens, vozes e identidade do texto original. O bom tradutor não suaviza a obra — ele a torna compreensível sem empobrecê-la. Acredito que o verdadeiro intercâmbio acontece quando há respeito mútuo: o autor preserva sua autenticidade e o tradutor atua como mediador atento, capaz de fazer essa literatura respirar em outra língua sem perder sua alma. Antes de finalizar, queria parabenizar a Rádio Egípcia, que comemora o nonagésimo segundo aniversário em 31 de maio de 2026.

Muito obrigada.


quarta-feira, maio 06, 2026

Entrevista com a acadêmica Teresa Nogueira por Anthony Rasib



 ENTREVISTA EXCLUSIVA COM A ESCRITORA TERESA NOGUEIRA, MEMBRO TITULAR DO GLIP


Organização: Grêmio Literário Internacional Poesiarte (GLIP)


Entrevistador: Anthony Rasib, Secretário Executivo do GLIP

1. Como você, sendo Membro Titular do GLIP, define a missão essencial do Grêmio no cenário literário atual, e qual é o maior diferencial que a instituição traz para novos poetas e escritores?

Teresa Nogueira: Eu creio que a missão essencial de um grêmio literário seja fomentar novos escritores e dar chance a talentos que vivem escondidos de se mostrarem. Sabemos que não é fácil para quem escreve entrar no mundo literário; vejo como um grupo fechado em que poucos sobrevivem, até porque é um meio caro. Creio que o diferencial de um grêmio seja o de dar visão e vez a quem tem potencial, mas não sabe como chegar lá. Eu acredito que sem emoção não há poesia; penso que palavra e emoção andam juntas. Eu digo que quem escreve, escreve para o outro, e isso precisa tocar em sua emoção. Meu coração e mente são uma confusão só. Às vezes quero falar aquilo de que o coração está cheio, mas a mente pondera e diz: "vai devagar"... e aí acende a luz da razão e o texto flui leve (risos). Gosto de escrever algo que deixe sempre uma mensagem, uma reflexão. Às vezes deixo o coração e a mente fluírem juntos... aí é lágrima na certa.


2. Toda trajetória literária costuma ter um despertar. No seu caso, houve a influência de algum familiar, professor ou conhecido que a incentivou a dar os primeiros passos na escrita? Como essas figuras foram decisivas para que você se tornasse a escritora que é hoje?

Teresa Nogueira: Eu venho de uma família pobre e de pouco estudo. Meus pais nem tinham o primário completo, mas sabiam ler. Sempre via meu pai lendo jornal; acho que livro nunca vi. Minha mãe gostava de revistas e fotonovelas. Quando aprendi a ler, pedia os livros da escola emprestados para eles lerem. No 4º ano primário, ganhei da minha professora um livro lindo que contava a história de um peixinho... eu, que já amava, virei fã. Meu pai um dia chegou em casa todo contente e disse que tinha comprado um livro para mim. Quando abri, o livro era preto, muito grosso e não tinha leitura, só palavras: era um dicionário. O sonho dele era me dar uma Enciclopédia Barsa, mas era muito caro; então ele apareceu com outra que me ajudou muito nos estudos. Meu tio, irmão da minha mãe (hoje falecido), foi outro grande incentivador. Ele era caseiro em uma casa de turistas em Cabo Frio e me mostrava a biblioteca deles. Fiquei apaixonada por José Lins do Rego (Menino de Engenho, Bangüê), por O Morro dos Ventos Uivantes e Éramos Seis. No Ginásio, as professoras de Português eram excelentes e eu amava as aulas de Redação. Fiz meu discurso de formatura, fui aplaudida e ali comecei a escrever em diários e cadernos de versos.


3. Olhando para a sua própria infância em Itaperuna, quais são as suas memórias mais remotas com os livros? Houve algum momento específico na sua meninice em que você percebeu que a palavra escrita seria o seu caminho de vida?

Teresa Nogueira: Na minha infância não tive muito contato com livros em casa, minha família não tinha recursos. Mas eu me lembro de quando entrei para a escola, aos três anos de idade. No primeiro dia de aula, meu pai mandou eu escrever meu nome todo... como eu não soube, ele me bateu. E eu, aos três anos, disse para mim mesma que ninguém nunca ia me bater e nem me humilhar por não saber ler e nem escrever. Ao final deste mesmo ano, eu recebi meu primeiro livro e fui aprovada para uma classe acima da minha. Foi ali que percebi que a escrita seria minha força.

4. Como a menina Teresa, que cresceu no interior do Rio de Janeiro, enxergava o mundo ao seu redor, e de que maneira essa pureza do olhar infantil ainda sobrevive hoje em sua escrita e em sua atuação como professora?

Teresa Nogueira: Minha infância pode não ter tido muitos livros, mas sempre teve muita história oral, muita música... Os livros eram só os escolares e os extraclasse que éramos obrigados a ler; meus colegas odiavam e eu amava. Eu sempre tive uma criança interior que me acompanha até hoje. Comecei a dar aulas aos treze anos e, por gostar de ler e escrever, sempre tive bons alunos leitores. Sobre o meu relacionamento com as palavras, elas só vão fluindo e às vezes eu nem sei como estou escrevendo... vou juntando uma frase com a outra e, quando vejo, o texto está pronto. As palavras fazem cócegas na minha mente e, enquanto não ganham vida, não sossegam. Não gosto de usar palavras difíceis ou uma retórica forte; quanto mais simples o texto, mais ele toca e convence quem lê. Creio que não sou eu quem escolhe as palavras, mas sou escolhida por elas. Elas me ajudam a exorcizar os fantasmas da minha mente.

5. Seus livros, A Menina e o Passarinho e A Menina e o Mar, trazem uma proposta ilustrada e interativa. Como foi o processo de resgatar o lúdico para essas obras e qual o significado emocional de ver sua filha, Sylvia, dar cor e forma ao universo que você idealizou?

Teresa Nogueira: Foi uma coisa bem louca. Eu estava sentada tomando café na pandemia, ouvindo a correria da criançada fora da escola, e um passarinho na árvore do meu quintal cantava alto. Me imaginei numa conversa com ele e saiu a poesia. Mostrei para minha filha, Sylvia Braz, que é autodidata e formada em Publicidade; ela ilustrou e o editor da Focus comprou a ideia na hora. Vendi 100 exemplares em dois dias! Eu sempre amei as ilustrações da minha filha, ela nunca teve aula de desenho e sempre fez todo tipo de arte. É um orgulho. Quando falo que a ilustração é dela, só ganho parabéns. Escrever é uma forma de me manter viva. Eu digo que as palavras me seduzem e me conquistam de um jeito que, enquanto não as faço ter vida, elas não me deixam sossegada.

6. Na sua opinião, qual é o valor e a importância de projetos de comunicação como esta entrevista para o GLIP? De que forma você acredita que este tipo de divulgação beneficia e incentiva outros Membros Titulares e novos talentos do Grêmio?

Teresa Nogueira: Um valor imenso. Você, através de suas perguntas e questionamentos, me fez pensar em coisas sobre mim e sobre a arte de escrever em que eu nunca tinha pensado a respeito. Creio que ajuda a despertar mais ainda o dom da escrita e da leitura. Nem todo bom leitor escreve e nem todo bom escritor lê; parece contraditório, mas é verdade. Creio que escrever é um dom. Outros membros, lendo a nossa entrevista, podem se sentir levados a pensar sobre tudo o que foi dito e também se autoavaliarem. Para mim, sua entrevista está sendo uma autoavaliação.

7. Com sua vasta experiência no Ensino Fundamental, como você acredita que a literatura pode transformar a infância de uma criança? O que mais a encanta no contato direto entre o pequeno leitor e a poesia?

Teresa Nogueira: O que me encanta são os olhinhos brilhando quando pegam um livro na mão. Quando você faz a roda de leitura, as crianças se encantam, querem mais... Meus alunos tinham amor e respeito pelos livros porque me viam cuidar dos meus. Na minha sala de aula, havia o cantinho da leitura; quem terminasse a tarefa podia ir se sentar lá e escolher um livro. Eles amavam! Muitos pediam para levar para a mãe ou para a avó lerem. Era uma troca muito linda. Às vezes eu criava um texto na hora e eles perguntavam: "tia, de onde você tira isso?". Eu apontava para a cabeça e dizia: "daqui ó...". Eles riam e falavam: "nossa tia, cabe tudo isso aí?". E assim eles também pegavam o gosto pela escrita.

8. Você participou de dezenas de antologias importantes, como o Tributo a Pelé e os 500 anos de Camões. Como é para você, que dedicou a vida a ensinar literatura, ver seu nome hoje ao lado de grandes nomes da nossa língua em obras que atravessam fronteiras?

Teresa Nogueira: Menino... estas Antologias me pegaram de surpresa. O responsável por elas leu um texto meu numa Academia virtual de que fazíamos parte, gostou e me convidou. Eu fiquei emocionada. Sempre amei os grandes autores (apesar de não saber textos de cor, apenas um ou outro do Drummond e da Cecília). Sempre sonhei um dia, mesmo sem escrever nada até então, em entrar para a ABL... Então, ver meus textos aprovados para participações em homenagens tão importantes me dá muita alegria. Engraçado que, às vezes, a gente ensina a Literatura de uma forma tão pedagógica e limitada que não percebe o impacto que ela pode causar na vida dos alunos.

9. Tendo homenageado ícones como Carlos Drummond de Andrade, como você busca equilibrar a tradição dos grandes clássicos com a "escrevivência" — essa escrita que nasce da experiência de vida — em suas próprias poesias?

Teresa Nogueira: Minha forma de escrever é livre. Rabisco umas "bobagens" que insistem em arranhar meus pensamentos. Não escrevo baseada em nenhum autor. Gosto de escrever sobre o que sinto, o que vejo. Quase sempre escrevo na primeira pessoa (não que seja necessariamente sobre mim), mas acho que nada seja parecido com os autores citados. Talvez eu tenha um pouco do sofrimento dos clássicos (Castro Alves, José de Alencar), porque gosto de escrever coisas fortes, às vezes uma dor vivida. Mas me identifico mais com Rubem Alves, Drummond e Cecília Meireles. Gosto da "Escrevivência da Experiência" e escrevo dentro desta linha: textos que levem uma mensagem e toquem o leitor.

10. Qual é o papel do Estado ou do setor público na promoção e no fomento a uma educação que priorize o acesso ao livro desde a primeira infância, garantindo que as futuras gerações tenham o direito de sonhar através da arte e da literatura?

Teresa Nogueira: Creio que os municípios e os governos estadual e federal não estão muito preocupados em tornar os alunos leitores, porque quem lê sabe, entende e cobra. Deveria ser deles a responsabilidade de doação de livros e formação de leitores, mas não vejo o poder público preocupado com isso. Aqui na minha cidade, caminhamos com nossas próprias pernas; às vezes sai um edital, mas é tanta burocracia que a gente desiste. Já vi chegarem às escolas muitos livros bons vindos do FNDE, mas alguns diretores os trancavam a sete chaves e ninguém tinha acesso.

11. Como professora de Língua Portuguesa e Literatura, qual você considera ter sido a sua melhor e mais marcante experiência em sala de aula? Além disso, quais foram os maiores desafios que enfrentou ao longo da carreira?

Teresa Nogueira: Minha experiência boa é que, como sempre fui boa leitora, tive bons alunos leitores. Os desafios no Magistério são sempre as turmas grandes, com 35 alunos, o que dificulta um trabalho melhor, e a dupla jornada. Mas o bom professor não espera pela ajuda governamental; quando ele quer, faz acontecer. Lembro-me de uma experiência marcante na faculdade: o professor pediu para lermos O Crime do Padre Amaro. A patroa da minha mãe disse que eu estava lendo um livro proibido e minha mãe o escondeu! Foi uma luta para eu terminar o trabalho. Até hoje não me lembro qual foi o crime do padre (acho que fiquei com medo!). Gosto de leituras que tocam a emoção: Rubem Alves, Fernão Capelo Gaivota, Terra dos Homens, A Moça Tecelã.

12. Para encerrarmos, qual conselho você daria para o escritor que deseja publicar sua obra hoje? O que ele deve levar em conta ao contratar uma editora para livros físicos ou ebooks para garantir que seu trabalho seja respeitado?

Teresa Nogueira: Procure saber da idoneidade de quem vai publicar. Eu já fui vítima de golpes (risos); acreditei em promessas de uma editora, perdi dinheiro e o livro nunca saiu. Já se vão três anos e nada. Então, colegas, não entreguem sua obra em quaisquer mãos. Pesquise, peça informações, tente conhecer alguém que já trabalhou com a editora. Quanto aos ebooks, eu não sei dizer, até porque não gosto; meu negócio é o livro físico. Valorize seu texto e sua trajetória.

Quem é Teresa Nogueira?

Teresa Nogueira Escritora, mãe e poetisa. Acadêmica de várias Academias de Letras. Locutora na Rádio Ave Maria, onde faz orações e leva a fé para os corações, além de recitar seus belos poemas.

Programa na Rádio

: https://www.youtube.com/live/2igWKWrKnfQ

Canal Oficial no YouTube: https://youtube.com/@radioavemariafm87.9

sexta-feira, março 20, 2026

Entrevista com Ashraf Al Bardisy por Anthony Rasib

 



ENTREVISTA EXCLUSIVA


Organização: Grêmio Literário Internacional Poesiarte (GLIP)


Entrevistador e Tradutor: Anthony Rasib, Diretor de Marketing e Intercâmbio Internacional do GLIP


Convidado: Ashraf Al Bardisy País: Egito


Perfil: Criador de Conteúdo, Influenciador Cultural, Empresário com uma Agência de serviços turísticos no Egito.


É com imensa honra que o Grêmio Literário Internacional Poesiarte (GLIP) recebe hoje Ashraf Al Bardisy, uma das vozes mais autênticas na divulgação da cultura egípcia para o mundo. Empresário e influenciador, Ashraf rompe fronteiras digitais para levar a essência de sua terra natal ao público global.


1. Anthony Rasib: No cenário atual da globalização, qual é o papel de criadores de conteúdo e guias profissionais na preservação da imagem de uma nação? Como você enxerga a responsabilidade de ser a "voz" de um país com uma história tão vasta e significativa para a humanidade?


Ashraf Al Bardisy: Na condição de criador de conteúdo e guia, atuo como um embaixador da vasta história do Egito. Meu papel é estabelecer uma ponte entre nossa herança milenar e o mundo contemporâneo. Ao mesmo tempo em que exalto a beleza de nossos sítios icônicos, mantenho-me justo, realista e íntegro. A verdadeira credibilidade é construída ao apresentar o que nossa nação tem de melhor, sem abdicar de uma perspectiva autêntica. Dedico-me também a revelar as inúmeras preciosidades ocultas que, atualmente, são negligenciadas. A honestidade garante que os visitantes confiem em minha voz, respeitem nossa cultura e descobram nossa total profundidade.


2. Anthony Rasib: Por que a comunicação direta e o intercâmbio cultural digital são fundamentais para que a verdadeira história e a cultura egípcia cheguem ao público mundial com autenticidade, sem os filtros de narrativas externas ou estereótipos?


Ashraf Al Bardisy: Historicamente, a imagem do Egito foi moldada por filtros externos e estereótipos que limitam nossa identidade. Ao dialogar diretamente com um público global, ofereço uma narrativa autêntica e de primeira mão. Tenho a liberdade de evidenciar preciosidades ocultas, como a Pirâmide Vermelha, a Bayt Al-Suhaymi e a Cidade dos Mortos, que a mídia convencional frequentemente negligencia. Esta ponte digital garante que o mundo contemple a profundidade total de nossa herança através de um olhar local, permitindo que os visitantes respeitem nossa cultura viva e descobram a real magnitude histórica de nossa nação.


3. Anthony Rasib: Como um egípcio que comunica sua cultura para o exterior, como você percebe o fascínio global pelo Egito? Houve algum momento ou feedback específico em que você sentiu que seu conteúdo estava quebrando barreiras geográficas e unindo pessoas de diferentes continentes?


Ashraf Al Bardisy: Percebo o fascínio global pelo Egito como um elo universal; pessoas de todas as partes do mundo reconhecem nossa história como um legado compartilhado da humanidade. Em meu trabalho, observo que o conteúdo referente ao Egito Antigo gera o maior índice de engajamento, superando o alcance global das narrativas islâmicas, coptas ou da história moderna. Um momento emblemático em que senti o rompimento das barreiras geográficas foi ao compartilhar conteúdos sobre Tutancâmon. Este tema unificou pessoas de diferentes continentes, provando que a Egiptologia é, de fato, uma linguagem universal. Ao difundir sua trajetória, testemunhei como nossa herança pode verdadeiramente servir de ponte entre culturas e aproximar o mundo sob uma mesma identidade histórica.


4. Anthony Rasib: Você já guiou turistas brasileiros? Se sim, como foi essa experiência? Existe algo no jeito brasileiro de conhecer o Egito que te chame a atenção ou que facilite essa troca cultural e humana?


Ashraf Al Bardisy: Curiosamente, ainda não tive a oportunidade de guiar brasileiros em solo egípcio, mas tive encontros memoráveis com eles em outras partes do mundo, como durante a Copa do Mundo na Alemanha, e também em destinos como Tailândia e Indonésia. Notei que o público brasileiro possui um espírito explorador notável.


5. Anthony Rasib: Como especialista, você conhece algum local, templo ou experiência que poucos agentes turísticos divulgam em pacotes convencionais, mas que proporciona uma visita inesquecível ao turista? Qual seria esse "tesouro escondido" que você recomendaria para quem busca o Egito autêntico?


Ashraf Al Bardisy: Recomendo enfaticamente o Templo de Dendera. Embora frequentemente excluído dos pacotes convencionais, é um dos sítios mais bem preservados do Egito. Seus tetos ainda conservam cores vibrantes e originais, além de raros zodíacos astronômicos que trazem a história à vida. Os visitantes podem explorar criptas estreitas ou subir ao terraço onde ocorriam rituais ancestrais, desfrutando de uma atmosfera espiritual e serena, longe das multidões. Para quem busca o Egito autêntico, Dendera oferece uma ponte singular entre a ciência antiga e a arte, proporcionando uma experiência inesquecível que parece intocada pelo comercialismo moderno.

Para uma jornada verdadeiramente memorável, recomendo explorar os Desertos Branco e Preto; suas formações de calcário que lembram paisagens lunares e suas colinas vulcânicas oferecem uma experiência de acampamento surreal sob as estrelas. O Oásis de Siwa é outra joia essencial, famoso por seus lagos de sal e pela cultura berbere única. Já no Mar Vermelho, enquanto El Gouna oferece um estilo de vida moderno e sofisticado, Dahab proporciona uma vibração boêmia e relaxante, e Marsa Alam permanece um paraíso intocado para mergulhadores. Esses locais revelam o "Egito Real": uma fusão de tranquilidade ancestral, beleza natural bruta e uma vida moderna vibrante que as excursões convencionais muitas vezes deixam de notar. Para finalizar, também indico o Cruzeiro no Nilo entre Luxor e Aswan.


6. Anthony Rasib: Como foi crescer cercado por uma história que o mundo inteiro estuda nos livros? Conte-nos um pouco sobre a sua cidade natal e a sua infância: qual é a sua lembrança mais antiga de olhar para um monumento e perceber que aquilo não era apenas "pedra", mas parte viva de quem você é?


Ashraf Al Bardisy: Eu cresci na Rua Al Ahram (a rua das pirâmides), e as Grandes Pirâmides eram a minha paisagem cotidiana. Embora minha formação acadêmica tenha sido em Contabilidade, minha trajetória como Comissário de Bordo Chefe (Flight Purser) na Kuwait Airways permitiu-me contrastar diversas culturas globais com a minha própria. Essa perspectiva internacional inspirou-me a retornar e fundar minha própria agência de serviços turísticos em El Gouna. Ao estabelecer uma ponte entre minhas raízes locais e minha experiência global, hoje compartilho a história viva do Egito através das minhas lentes, garantindo que nossas narrativas alcancem o mundo com autenticidade e um rigoroso toque profissional.


7. Anthony Rasib: Qual o maior diferencial que você busca trazer para que o público mundial entenda a complexidade e a beleza da vida árabe moderna, transformando sua identidade local em uma narrativa que faça sentido para qualquer pessoa no mundo?


Ashraf Al Bardisy: Meu principal diferencial é demonstrar que o Egito é uma sociedade viva, e não apenas um museu de antiguidades. Eu estabeleço uma ponte entre nossas raízes históricas e a vida árabe moderna ao focar em conexões humanas universais. Seja ao destacar o esmero de um artesão local ou a hospitalidade encontrada em El Gouna, apresento valores como a generosidade e a resiliência, que ecoam globalmente. Ao compartilhar nossa música contemporânea, nossa gastronomia e nossas tradições ao lado de nossos monumentos, supero estereótipos limitantes. Transformo minha identidade local em uma narrativa que permite ao mundo enxergar o Egito como uma nação vibrante, complexa e profundamente conectada com a realidade de qualquer pessoa.


8. Anthony Rasib: Qual é a missão essencial que te move ao mostrar o "Egito real"? O que você mais gosta de revelar sobre o cotidiano do seu povo que as câmeras de cinema e os grandes documentários de história raramente mostram?


Ashraf Al Bardisy: Minha missão essencial é reivindicar nossa narrativa, demonstrando que o Egito é uma nação viva, e não apenas um museu. Enquanto os documentários focam em pedras silenciosas, sinto prazer em revelar o calor e o humor do nosso cotidiano. Amo mostrar a hospitalidade "oculta" — o chá compartilhado com um estranho, a energia pulsante de um mercado local ou o espírito moderno e criativo em lugares como El Gouna. Esses momentos humanos, que as câmeras de cinema frequentemente ignoram, provam que nosso maior tesouro não é apenas o nosso passado ancestral, mas a alma resiliente e acolhedora do povo egípcio de hoje.


9. Anthony Rasib: Como você percebe o movimento atual da juventude egípcia em relação à manutenção de suas raízes e tradições?


Ashraf Al Bardisy: Percebo um poderoso "Despertar Digital" entre a juventude egípcia. Hoje, os jovens não são apenas consumidores passivos da história; eles são seus protetores ativos. Estamos testemunhando uma mudança massiva, onde a Geração Z e a Geração Y utilizam plataformas como TikTok e Instagram para reivindicar nossa narrativa — distanciando-se das "pedras silenciosas" dos antigos documentários em direção a uma celebração vibrante e viva de nossas raízes.


Ashraf Al Bardisy agradece o espaço ao público do Brasil e países da lusofonia, via Grêmio Literário Internacional Poesiarte (GLIP).

Seus trabalhos estão acessíveis neste link:

👉 TikTok - @red.sea.guide2

Ashraf também é muito ativo no Facebook, participando de grupos da cultura libanesa e egípcia.

sábado, janeiro 17, 2026

Querida Cidade: Reminiscências de Tontonhim por Rodrigo Poeta

 


Foto enviada pelo escritor 
Antônio Torres. 


Querida Cidade: Reminiscências de Tontonhim 

*Capa do romance Querida Cidade
 de Antônio Torres. 


       "A palavra triste pintava-se de crepúsculo na fronteira da nostalgia", assim é Das Dores (Tontonhim) o narrador-personagem de Querida Cidade entre a personificação da vida em palavras numa síntese de acontecimentos no "reino do silêncio."

      A sua estampa de vencedor passa pela Rua dos Covardes, através de uma maleta cheia de culpas, onde a pausa é um artifício do autor no "limite do indizível."

       Querida Cidade vive no "alforjes cheios de metáforas ali desconhecidas" pelo leitor entre alegorias num "naufrágio da ilusão" ao paradoxo das cidades dentro da Querida Cidade maior entre "pinceladas febris,  que mais parecem chamas de desespero."

       Afinal, "esqueça o ouvinte, o leitor, o espectador, o interlocutor,  o cara que você foi" e "considera-se uma página virada, uma fita arquivada, um argumento,  uma ideia, um pensamento com prazo de validade vencida, o outro lado de um disco que já não existe."

      O enigma é um jazz a soar entre o filósofo alemão Arthur Schopenhauer,  onde "a noite finalmente lhe sorria."

       "Das Dores (Tontonhim), zanzara sobre paralelepípedos até ficar de pé redondo" em "léguas tiranas" num Grêmio Literário absorvido pela sede de leitura. 

        Querida Cidade do "solene cheiro franciscano de incenso", do "doentio ar impregnado do éter", do "egoísmo acomodatício e pusilâmine" aos olhos do leitor entre a prosa do El perseguidor de Julio Cortazar a definir que o "nada torna as pessoas melhores do que a prática da virtude."

       Assim é o romance de Antônio Torres (Tontonhim), onde "triste mesmo foram os sinos da sua infância", pois Querida Cidade personificada, paradoxal, metafórica e alegórica são marcas de um testemunho testamento  de fluídas palavras entre o acadêmico e o "matuto", do literário e do sertanejo brasileiro dos ditados populares de um Brasil dentro do Junco ao sol da imaginação de Sátiro Dias.


🖋Rodrigo Octavio Pereira de Andrade (Rodrigo Poeta)

Professor,  escritor,  acadêmico,  pesquisador e palestrante. 

Presidente do Grêmio Literário Internacional Poesiarte

Cabo Frio, 16 de janeiro de 2026.

terça-feira, dezembro 23, 2025

GLIP recebe homenagem!


Grêmio Literário Internacional Poesiarte recebeu da nossa Diretora de Pesquisa e acadêmica  Renata Barcellos, que é também fundadora da BarcellArtes, o Certificado de Incentivo Cultural. A BarcellArtes é presidida pelo acadêmico Raimundo  Campos Filhos, que também é presidente da AOL de São Luís/MA. O GLIP agradece o carinho da confreira,  que homenageia todos da entidade. Afinal este é nosso objetivo como entidade incentivar cultura sem fazer acepção  de ninguém. 

#GLIP 
#Poesiarte 

quinta-feira, dezembro 18, 2025

POEMA DE RODRIGO POETA NO ZERO HORA



*O poema "Na janela" de Rodrigo Poeta foi publicado no jornal de maior circulação do Rio Grande do Sul,  o jornal Zero Hora.