domingo, novembro 07, 2010

POESIARTE EM FOCO DE CAMILA DE ARAUJO



SURTO!

            O corpo outrora entorpecido se manifestava lentamente através de pequenos espasmos e um estranho formigamento. O enjôo invadiu-lhe as entranhas. Uma mão quente tocou a sua. É a virgem, disse a si mesmo. Forçou a visão em busca daqueles que lhe levariam aos céus, vultos tomavam formas; rostos, lágrimas, olhares preocupados, semblantes tensos. Um homem de branco tomava-lhe o pulso:
            - Ele ta acordando, doutor.
            - Ele vai ficar bem?
            - Fala alguma coisa, meu filho
            - Guto, Guto! Sou eu, Glória, meu amor.
            - Cala a boca, menina. Meu filho você ta sentindo alguma coisa, ta me vendo?
            - D. Martinha, eu tenho o direito de falar com meu noivo.
            O rapaz dissonante aos poucos reconhecia aquelas pessoas, exceto o homem a sua esquerda que mandava todos ponderarem os ânimos. A imensidão alva pareceu se dispersar enquanto assimilava cada face chorosa que rodeava sua cama; a mãe, os irmãos, amigos, uma vizinha e duas senhoras portando terços e rezas infindáveis. E é claro, Glórinha, apertou a mão da amada.
            Guto olhou ao redor, as fileiras de camas e macas, o invisível frio da morte ganhando uma forma, belas mulheres desfilando pra lá e pra cá com injeções e comadres nas mãos. E seu corpo molenga sobre o leito, metido num avental azul, daqueles que deixa tudo a mostra. O que fazia ali? Pensou em acidente de carro, derrame, um AVC qualquer.
            Tentou falar, mas tinha a impressão da língua estar embolada dentro da boca. Sentia sede, molharam seus lábios com delicadeza. O enjôo dava lugar há uma dor estomacal. O médico injetou morfina em sua veia, uma quantidade mínima.
            O desconforto logo se extinguiu, de certo o efeito da medicação, ou o bem estar extremo que o invadiu ao perceber que os olhos inchados de todos estavam atentos a cada movimento involuntário seu. Recebia beijos, carinhos, mimos e proferiam repetidamente as mesmas frases de afeto e preocupação. Massageavam seu ego, exacerbavam sua vaidade e dilatavam seu orgulho. Imaginou-se um herdeiro de algum reino perdido, como se fosse à esperança de uma nação onde seu renascimento era celebrado. Divertiu-se com aquele lúdico devaneio.
            Quando o horário de visitas acabou a turma saiu com relutância.
            A sós com o médico, Guto o ouvia falar sobre comprimidos e uma carta ilegível:
            - Eu... Eu tentei me... M-a-t-a-r? – Perguntou o rapaz com dificuldade de falar.
            - Não se lembra? – Disse o médico
            - Lógico que não! Nem tenho motivos pra isso, doutor. Estou chocado. Estou feliz por ter visto todos se preocupando aqui. Sou um homem muito devoto a família, vou me casar em breve.
            - Não se sinta assim, rapaz. Não procure se explicar agora, apenas repouse
            - O que será que me minha mãe achou disso? Meu Deus, será que ela acha que tem um filho fracassado ou marica?
            - Com certeza ela não acha nada disso.
            - E Glórinha? Será que minha futura esposa me julga um homem covarde? Se ela me deixar, doutor, aí sim que vou ter motivos pra me matar.
            - Calma! Repouse, é o que você precisa agora, juntos depois vamos encontrar essas respostas com ajuda profissional.
            - Você acha que sou louco? Eu sou louco? – Perguntou Guto agitadamente
            - Não, rapaz. Guto, me escuta, descansa. Eu preciso atender outros pacientes agora. – Disse o médico
            - Doutor, se eu surtar? Chama uma enfermeira pra ficar aqui de olho grudado em mim!
            - Guto, as enfermeiras estão sempre de olho. Se precisar de qualquer coisa pode chamá-las e mandá-las me procurar.
            - Tem certeza? E se eu tentar de novo?
            - Tenho certeza que não o fará. Agora tenho que ir, qualquer emergência mande me chamar, certo garotão? Repouse agora.
            Guto não encontrou razões que o levassem a dar fim a própria existência, pelo contrário, iria casar em breve, era um comerciante prospero. Sua vida era aparentemente perfeita até demais. Exceto quando precisava livrar os irmãos dos porcos quando se metem em confusão na Boca por causa de drogas. E ninguém o criticava ou questionava quando decidia e pagar uma rodada de chope para os colegas e as contas de cabeleireiro e remédios da mãe. Desde que o pai morreu, assassinado por uma amante há três anos, que todas as responsabilidades da família pousaram em suas costas, e tem que ser muito macho pra agüentar isso, Guto tinha pensava em Glória, modelo, sempre elegante com os vestidos que o noivo fazia questão de comprar nas melhores lojas, e não tinha duvidas da sua virilidade.
            Pousou a mão sobre o estomago, sentia as dores voltando. Pensou em chamar o médico. Gritou pelas enfermeiras, acusando dores alucinantes.
            Enquanto isso Doutor Nelson caminhava pelo corredor, num divertido e sádico monologo interior: Pois é, no fundo, todos os suicidas não passam de uns carentes sedentos por atenção.




*Camila de Araujo - escritora carioca e blogueira.

Um comentário:

Hanukká disse...

Deixarei um abraço, e votos que sua semana seja de muita paz e alegria.

Bom domingo, abraço.

Provérbio 16- 1,2,3.


Do homem são as preparações do coração, mas do SENHOR a resposta da língua.

Todos os caminhos do homem são puros aos seus olhos, mas o SENHOR pesa o espírito.

Confia ao SENHOR as tuas obras, e teus pensamentos serão estabelecidos